Imagem não se improvisa: o desafio permanente dos gestores públicos – Maurílio Lopes Fontes

Em política, não basta fazer. É preciso ser percebido como alguém que faz – e, mais do que isso -, como alguém que faz com propósito e direção. A construção da imagem pública de um gestor não é um detalhe secundário nem um adorno superficial. Trata-se de um processo contínuo, estratégico e profundamente ligado à própria sustentação do poder.
Governar nunca foi apenas executar ações. Sempre envolveu também a capacidade de ser reconhecido, compreendido e legitimado pela sociedade. Existe uma dimensão invisível da política que opera no campo das percepções, onde decisões ganham significado e lideranças são avaliadas para além dos resultados objetivos.
Nesse terreno, tudo comunica. A forma como um gestor fala, se posiciona, reage ou silencia diante de determinadas situações constrói, pouco a pouco, uma imagem pública. Não há neutralidade possível: até a ausência de posicionamento produz interpretação. A política é, inevitavelmente, um espaço de exposição permanente.
Com o avanço das tecnologias e a multiplicação dos canais de informação, esse processo tornou-se ainda mais complexo. Hoje, não existe mais controle absoluto sobre a narrativa. O que existe é disputa. Diferentes atores reinterpretam os mesmos fatos, produzem versões e tentam influenciar a forma como a sociedade percebe a “realidade”, hoje com pouca importância diante das múltiplas e velozes narrativas.
Nesse ambiente, um erro recorrente se repete com frequência: a crença de que uma boa gestão, por si só, será suficiente para gerar reconhecimento público. Não será. Entre aquilo que é feito e aquilo que é percebido existe um espaço simbólico altamente competitivo. É nesse espaço que se definem reputações.
A percepção coletiva não nasce automaticamente dos fatos. Ela é construída a partir de interpretações, enquadramentos e narrativas que dão sentido às ações. Quando esse processo não é conduzido com estratégia, ele passa a ser conduzido por outros – muitas vezes de forma distorcida.
A imagem pública, portanto, não é um reflexo automático da gestão. Ela é um ativo que precisa ser construído, protegido e constantemente atualizado. Pequenas incoerências, falhas de comunicação ou decisões mal explicadas podem comprometer rapidamente aquilo que levou tempo para ser consolidado.
A realidade atual intensifica esse desafio. Vivemos em uma cenografia de visibilidade permanente e qualquer deslize pode ganhar proporções amplificadas. O que antes poderia ser tratado como um problema interno, hoje se transforma em um episódio público, com impacto direto na reputação.
Diante disso, três elementos tornam-se essenciais. O primeiro é a coerência. Não há construção de imagem sustentável quando existe distância entre discurso e prática. A percepção pública, cedo ou tarde, ajusta essa conta. O segundo é a capacidade de dar sentido às ações, transformando decisões administrativas em mensagens compreensíveis para a população. O terceiro é a presença ativa nos espaços onde a opinião pública se forma, porque os espaços nunca permanecem vazios – eles sempre serão ocupados por alguma narrativa -, no geral, desfavorável.
O grande desafio da política contemporânea é justamente esse: transformar ação em significado. Não basta entregar resultados; é preciso garantir que esses resultados sejam compreendidos, reconhecidos e valorizados pela sociedade.
Isso exige uma mudança de mentalidade. Exige entender que gestão e comunicação não são dimensões separadas, mas partes de um mesmo processo. Exige liderança capaz de atuar não apenas no plano técnico, mas também no plano simbólico, onde se disputa a interpretação da realidade.
A imagem pública deixou de ser um elemento periférico e passou a ocupar o centro da dinâmica política. Ignorá-la não significa apenas perder visibilidade, mas comprometer a própria capacidade de governar.
Porque, no final das contas, a avaliação de um gestor não se constrói apenas a partir do que ele faz, mas da forma como suas ações são percebidas, interpretadas e incorporadas pela sociedade.
E é nesse espaço – o da percepção – que, cada vez mais, se decide quem permanece e quem perde relevância no cenário público.
Maurílio Lopes Fontes é especialista em Marketing Político, Mídia, Comportamento Eleitoral e Opinião Pública (UCSAL), especialista em Assessoria Política e Governo (UCSAL), MBA em Comunicação Governamental e Marketing Político (IDP/Brasília), especialista em Estratégia e Liderança Política (Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo – FESPSP), Formação em Governança e Inovação Pública (FGV/RJ), Diplomado em Gestão de Governo e Liderança Política (George Washington University – EUA) e Mestre em Marketing, Comunicação e Consultoria Política (Espanha).
Imagem gerada por IA (9 de abril de 2026)

