1955: Waldir Pires, Balbino e um Brasil dividido entre getulistas e antigetulistas – Maurílio Lopes Fontes

Em junho de 1955, enquanto o país se preparava para escolher um novo presidente da República, a divisão política que marcara os últimos meses do governo Vargas permanecia aberta.
Getulistas e antigetulistas continuavam a disputar os rumos do país, agora diante de uma eleição que colocava novamente frente a frente forças políticas que haviam estado em campos opostos na crise de 1954.
A polarização nacional chegou também ao plenário da Assembleia Legislativa da Bahia.
Na edição de 14 de junho de 1955 do Diário da Assembleia Legislativa, encontra-se uma intervenção do deputado Waldir Pires sobre a sucessão presidencial e, particularmente, sobre a posição do governador Antônio Balbino.
O documento permite acompanhar o debate no momento em que os acontecimentos estavam em curso.
Eleito pelo Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), Waldir Pires iniciava seu primeiro mandato na Assembleia. Balbino, por sua vez, estava há pouco mais de dois meses no governo do estado.
Ao tratar da sucessão presidencial, Waldir começou por uma questão da política baiana que não poderia ser ignorada.
Balbino havia divergido da direção estadual do Partido Social Democrático durante a sucessão de 1954.
Disse Waldir: “O Governador Antônio Balbino, tendo divergido da direção local do Partido Social Democrático, em virtude da última sucessão estadual, evidentemente a respeito da sua posição no problema sucessório nacional procurou pôr a questão em termos muito claros e muito límpidos.”
A divergência de Balbino com a direção estadual do PSD poderia suscitar dúvidas sobre seu posicionamento diante da candidatura presidencial de Juscelino Kubitschek, lançada nacionalmente pelo partido.
É justamente isso que Waldir procura esclarecer.
Segundo seu relato, Balbino desejava inicialmente que a sucessão não reproduzisse a divisão política que havia marcado a crise do governo Vargas. Defendia uma candidatura capaz de promover uma “conciliação geral do Brasil”.
Não se tratava apenas da procura de um nome eleitoralmente competitivo.
O que estava em questão era a possibilidade de retirar a sucessão presidencial do confronto que continuava separando o país entre os que se identificavam com a herança política de Vargas e aqueles que haviam se colocado contra ele.
O próprio Waldir apresenta a questão nesses termos.
Balbino pretendia evitar que a eleição fosse novamente submetida à divisão entre “pró” e “contra” Getúlio Vargas.
A morte de Vargas, portanto, não havia eliminado a polarização. O personagem deixara a cena, mas permaneciam as forças políticas que se haviam organizado em torno dele e contra ele.
Esse é um aspecto particularmente revelador do documento de 14 de junho de 1955.
Vista à distância, a eleição daquele ano pode ser apresentada simplesmente como uma disputa entre candidatos à Presidência da República.
A fala de Waldir Pires, quando a campanha ainda se desenvolvia, aparece também como continuidade de uma disputa política que sobrevivera à morte de Getúlio.
Juscelino Kubitschek era o candidato do PSD.
João Goulart, presidente nacional do PTB e ex-ministro do Trabalho de Vargas, disputava a vice-presidência. A presença de Jango dava à sucessão uma ligação ainda mais evidente com o legado getulista.
Balbino procurara inicialmente outro caminho. A candidatura de “conciliação geral do Brasil”, entretanto, não se concretizou.
Diante da realidade política que se estabelecera, Waldir revelou em que direção se movimentava o governador da Bahia:
“Assim, como as coisas permanecem, tal como se iniciaram, claro está que a sua posição – pelo que sei […] – é de simpatia pela candidatura do Sr. Juscelino Kubitschek e do seu companheiro de chapa Sr. João Goulart.”
Waldir utiliza a palavra “simpatia”.
Não fala em adesão formal nem anuncia qualquer compromisso que ultrapasse aquilo que conhecia da posição do governador. Registra que, nas circunstâncias daquele momento, Balbino demonstrava simpatia por Juscelino e Jango.
A afirmação ganha maior significado quando relacionada à tentativa anterior de conciliação.
Balbino preferira inicialmente uma solução que retirasse a eleição da polarização entre getulistas e antigetulistas.
Não sendo possível construir essa alternativa, sua posição passava a aproximá-lo justamente da chapa que reunia o PSD de Juscelino e o PTB de João Goulart.
Mas Waldir foi além.
Em outro momento de sua intervenção, estabeleceu uma definição que ajuda a compreender com maior precisão onde situava politicamente Antônio Balbino: “sob qualquer hipótese, ele não ficou do lado daqueles que, na política nacional, se situaram ‘contra’ Getúlio Vargas.”
A frase é provavelmente a síntese política daquele pronunciamento. Balbino poderia defender a conciliação.
Havia, porém, uma fronteira que o deputado considerava possível estabelecer: Antônio Balbino não estava no campo antigetulista.
A declaração ganha dimensão adicional por partir de Waldir Pires.
Ele próprio chegara à Assembleia pelo PTB, partido profundamente associado a Vargas e então presidido por João Goulart.
Não era, portanto, um observador distante daquela disputa. Era um parlamentar inserido num dos campos políticos diretamente envolvidos na sucessão.
Há ainda outro aspecto importante. A fala de Waldir mostra como as fronteiras da política nacional não coincidiam necessariamente com as disputas estaduais.
Balbino divergira da direção baiana do PSD na sucessão de 1954. Isso, entretanto, não o conduzia automaticamente para uma posição contrária ao candidato presidencial do PSD.
Ao contrário. Em junho de 1955, segundo Waldir, o governador demonstrava simpatia por Juscelino Kubitschek e João Goulart.
É nesse cruzamento entre a política baiana e a disputa nacional que o documento adquire maior interesse.
A sucessão presidencial não chegava à Bahia como uma questão distante.
Ela se misturava às alianças, divergências e rearranjos produzidos pela eleição estadual do ano anterior e, sobretudo, à grande divisão política que permanecera aberta depois de 24 de agosto de 1954.
A posição de Balbino, tal como apresentada por Waldir Pires, expressava essa complexidade.
O governador buscara uma candidatura de “conciliação geral do Brasil”, capaz de impedir que a sucessão fosse novamente organizada entre os campos “pró” e “contra” Getúlio.
Quando essa possibilidade não se concretizou, Waldir registrou sua simpatia por Juscelino e Jango.
E fez questão de estabelecer a fronteira que considerava essencial naquele momento: Balbino não estava entre aqueles que se haviam colocado “contra” Getúlio Vargas.
A intervenção de Waldir Pires, preservada no Diário da Assembleia de 14 de junho de 1955 (ver abaixo), registra, assim, um Brasil no qual a morte de Vargas não havia encerrado a disputa política construída em torno de sua liderança.
Getúlio havia saído da cena.
Getulistas e antigetulistas continuavam na disputa política nacional.
Os meses seguintes seriam de muita tensão, inclusive com a tentativa de impedir a possse do presidente eleito em outubro de 1955.

Diário da Assembleia Legislativa, 14 de junho de 1955
Foto: JK (à esquerda) e Jango (à direita)
Maurílio Lopes Fontes é licenciado em História, bacharel em Marketing, mestre em Marketing, Comunicação e Consultoria Política (Espanha), diplomado em Gestão de Governo e Liderança Política (George Washington University), especialista em Marketing Político, Mídia, Comportamento Eleitoral e Opinião Pública (UCSAL), especialista em Estratégia e Liderança Pública (Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo), especialista em Assessoria Política e Governo (UCSAL)

