PIB chinês não ajuda a melhorar expectativas no médio prazo

O fato de o avanço de 7,5% do PIB chinês não ser pior do que o esperado –ou ser ligeiramente melhor do que as expectativas que o governo em Pequim atabalhoadamente tentou baixar nos últimos dias– não é suficiente para animar prognósticos cada vez piores para a lenta recuperação global.

O Brasil, especificamente, tem razões para se preocupar.

Nos últimos três anos, a sombra da desaceleração chinesa pairou sobre a percepção que investidores e analistas (sobretudo estrangeiros) têm do país, dada a crescente fatia que as compras de minérios e outras commodities por Pequim representa na balança comercial e no crescimento brasileiros.

Antes de o efeito concreto bater na balança, portanto, bate uma espécie de ressaca às avessas no mercado, motivada por essa percepção.

Da série de gráficos apresentados nesta segunda-feira pelo jornal “Financial Times” sobre o PIB chinês, um deles, produzido pela consultoria Haver Analytics, ilustra o problema.

Atrás de Rússia e Indonésia, o Brasil, seguido pela Índia, é o pais que arcou com a pior desaceleração em suas vendas à China entre os 12 meses encerrados em fevereiro do ano passado e os 12 que decorreram de lá até fevereiro deste ano.

As importações vindas da Rússia e da Indonésia, porém, continuavam crescendo, ainda que menos. Já as brasileiras (e indianas, da zona do euro, do Japão e de outros 3 países, de 17 compilados) encolhem. Só os americanos, cujo ritmo de recuperação estabilizou, mantiveram o equilíbrio.

O Fundo Monetário Internacional já chamou a atenção para o problema ao reduzir, na semana passada, suas expectativas para o crescimento global e botar, pela primeira vez desde a eclosão da crise em 2008, a culpa nos emergentes.

Segundo o FMI, 2013 não será melhor do que 2012 – a recuperação está aquém do esperado. Analistas de mercado veem um quadro mais turvo. O crescimento chinês a dois dígitos pertence a outra era e, por se tratar da segunda economia do mundo, qualquer perda de fôlego se faz sentir mundo afora.

Se a atribuição de responsabilidades pelo Fundo é inédita neste pós-crise, seu alerta não é: é preciso que os chineses poupem menos e gastem mais (ainda no último trimestre, o crescimento foi mais puxado por investimentos, dentro de um sistema financeiro incipiente, do que pelo consumo).

Pode até ser a melhor saída, mas é uma saída tortuosa. Esbarra, afinal, não só em política econômica, mas nos hábitos culturais de 1,3 bilhão de pessoas.

Fonte: Folha de São Paulo

 

 

Maurílio Fontes

Proprietário, jornalista, diretor e responsável pelo Portal Alagoinhas Hoje