Para crescer, país precisa de serenidade, não de pacotes mirabolantes, diz economista

O dia de ontem (29) não foi de comemoração na maioria das consultorias econômicas e áreas de pesquisa de bancos. A maioria errou, esperava mais da economia no primeiro trimestre. André Perfeito, economista-chefe da Gradual Corretora, foi um dos poucos que acertaram. Para ele, o PIB não crescerá mais do que 2,1% neste ano.

Seguindo o ritual do bom analista, evita comemorar demais: “Você sabe que, mais cedo ou mais tarde, vamos errar”, disse pouco antes desta entrevista à Folha.

Folha – Sua previsão foi uma das poucas que acertaram o PIB do 1º trimestre. Qual a diferença entre a sua leitura e a dos demais analistas?

André Perfeito – A gente está passando por uma acomodação no consumo das famílias, que agora ficou mais evidente. Mas, em alguma medida, já estava refletido na desaceleração da geração de empregos formais. Soma-se a isso, o resultado do setor externo: estava muito claro que isso ia ser ruim no primeiro trimestre. Estamos falando de um deficit comercial de US$ 5 bilhões. É uma situação muito difícil!

Esses dois fatores, que tendem a ser persistentes ao longo do ano, nortearam a minha leitura mais do que a retomada dos investimentos, que tem sido a aposta dos demais economistas.

E mesmo esse crescimento do investimento, que é bem-vindo, foi muito impactado pela produção de caminhões por conta da supersafra.

Vê com reservas a volta do investimento?
Não vejo esse processo se generalizando e se intensificando nos próximos meses. De forma geral, os economistas estavam trabalhando com hipóteses muito otimistas. O crescimento médio por trimestre em 2011 e 2012 foi de 0,35%. Crescer 0,9% [como esperavam muitos analistas] é mais do que o dobro. O governo estava trabalhando com 3,5%, 3% neste ano. Tem que crescer mais de 1% por trimestre para chegar a esse valor. Não tem como.

O que espera no resto do ano?
Acho que a economia vai crescer 2,1% em 2013, o que é um crescimento médio de 0,55% por trimestre, justamente a situação atual.

Vejo manutenção nos dois fatores -consumo estacionando e setor externo não contribuindo de forma positiva. Além disso, a recuperação do investimento ainda me parece tímida.

Por que o pessimismo com o consumo?
Porque já atingiu um patamar elevado. Não vai cair, não será nenhum desastre, mas as famílias já consumiram suas TVs de plasma. Por mais que o governo queira insistir na expansão do crédito via BB e Caixa, não dá mais para forçar o consumo.

O recado é o seguinte: os consumidores fizeram a lição de casa mas sozinhos não podem levar a economia para frente. Esse calor acaba vazando para todos os lados.

Nós estamos ajudando o mundo muito mais do que o mundo está nos ajudando.

O deficit comercial recorde, a remessa de lucros recorde e agora vamos subir os juros para pagar juros recorde. Estamos ajudando todo mundo.

Seu cenário prevê retomada?
No final de 2013, na medida que entrem os investimentos para a Copa do Mundo e nos portos. Mas no segundo e terceiro trimestres, ainda estou preocupado com o estado geral da economia, principalmente com a conta externa.

Por isso, apesar dos riscos inflacionários, não se pode fazer uma política monetária muito severa para não atrapalhar ainda mais. É preciso entender que há uma mudança profunda em curso na economia brasileira.

A Selic foi cortada para baixo do piso institucionalizado, que era a poupança. Era o piso da rentabilidade do dinheiro desde o 2º Reinado. Isso tem uma série de desdobramentos. O principal é que a taxa de lucro caiu. Agora, o retorno está indo para um patamar mais normal. O governo precisa conduzir essa transição de forma mais serena e eu vejo muito experimentalismo, que gera mais ruído do que o necessário.

Por exemplo?
Cortamos a taxa de juros, abriu-se então espaço fiscal. É correto que o governo devolva parte disso via corte de impostos. Só que a impressão que dá é o samba de uma nota só: IPI para automóveis, IPI para automóveis… Parece que não houve um planejamento. E o governo não conseguiu fornecer um norte para o país e isso gerou uma descoordenação de expectativas.
Não só do mercado, mas também as empresariais. Em vez de apontar um cenário, o governo gerou mais tumulto e os empresários se retraíram mais ainda. O que é importante é garantir, na cabeça dos empresários, que a taxa de juros mais baixa veio para ficar e que vai continuar neste patamar.

Isso significa não aumentar demais os juros.
Claro, o Brasil não pode brincar de ser Suiça, não pode ser mais realista do que o rei. Existe uma disputa monetária lá fora. A alta dos juros neste momento tenta mais responder mais às expectativas do que controlar a demanda.

Quanto tempo leva para digerir isso?
Não é uma questão de tempo, é uma questão de postura do governo. O investimento tende a voltar a subir em 2013, mas ainda não seria agressivo ou permanente, uma vez que todo mundo está pendurado no resultado das eleições e da Copa do Mundo. O futuro ficou impedido. E a culpa é do governo.

Por conta da condução da política econômica e da evidente antecipação do jogo eleitoral, criou-se uma barreira no horizonte de planejamento dos empresários, em que a Copa e a eleição representam um fim de ciclo. Falta ao governo falar que esse processo é perene, que vai continuar, seja com com quem for. Para quem acha que o investimento vai superbem em 2013, me desculpe, se subir 6% não será um bom resultado. No ano passado caiu 4%.

A inflação não é um risco neste ano, no seu cenário?
Houve um choque de oferta dos alimentos mas já estamos vendo um recuo significativo nos preços agrícolas. A outra parte são os salários e os empregos. Como estou mais pessimista com o crescimento e com o consumo, acho que não tende a ser mais perverso esse processo [de aumento] dos serviços. Minha projeção de inflação é 5,1% neste ano, isso não é baixo em nenhum lugar do mundo. O mercado trabalha com 5,8%. Eu não acho que inflação tende a ser esse vilão como pensam. Haverá um barulho, porque vai estourar o teto em 12 meses em junho, mas depois ela tende a sair um pouco do cenário.

Como o governo deve resolver esse bloqueio no crescimento?
Espero que não seja por meio de pacotes mirabolantes. Deve ser com serenidade. O mais importante é fazer voltar o investimento e para isso o governo não pode travar o futuro na eleição e na Copa do Mundo.

O PIB do primeiro trimestre vai ser lido como um sinal difícil pelo governo e sociedade, com certa decepção. Mas a variável chave é o investimento e, para recuperar isso, o empresário tem que voltar a ver futuro com um olhar mais adequado. Nesse ano não vai ser, já vi que não vai ser. Espero que no ano que vem sejam concluídas as obras de portos e da Copa. O que temos que fazer é reconstruir o futuro do Brasil, que sumiu, e isso se traduz em investimentos baixos.

Você acha que esse clima foi provocado pelo governo?
O problema maior não é o que o governo está fazendo, mas como está fazendo. A retórica nacional desenvolvimentista cria inimizades dentro do setor que ele quer ajudar, que é o setor industrial. O governo não consegue fazer o diálogo de maneira tranquila.

Por exemplo, tivemos uma reunião do Copom difícil. Na semana anterior, Miriam e Guido dizem que vão fazer um esforço fiscal de R$ 28 bilhões, bem menor do que o feito nos últimos anos. E que a receita vai cair. Na véspera do Copom? Esse tipo de fazer a coordenação foi terrível. Se o governo não faz a parte fiscal, o BC tem que entrar e limpar a bagunça. No mundo inteiro, os países estão fazendo política monetária expansionista e política fiscal contracionista. O Brasil está fazendo o contrário. Um dos perigos disso é um curto-circuito financeiro mesmo em um ambiente de alta liquidez.

Fonte: Folha de São Paulo

 

Maurílio Fontes

Proprietário, jornalista, diretor e responsável pelo Portal Alagoinhas Hoje