O presidente de 2015 tem de acordar – Vinicius Torres Freire

No ano que vem, o governo terá tão pouco dinheiro quanto neste 2014. Será ainda o terceiro ano de reajuste reduzido do salário mínimo, de crescimento mais reduzido do emprego, se não de algum desemprego, de inflação além de 6%, o que não pega bem entre o eleitorado.

Enfim, será um ano de vazio na caixinha de mágicas e milagres que vinha permitindo ao governo minorar a dureza da vida de ao menos metade da população e subsidiar empresas de modo a evitar uma paradeira de fato na economia.

Esta é uma perspectiva neutra de 2015, digamos, caso em que não se toma medida mais drástica a fim de corrigir os desarranjos mais elementares da economia. Mas, politicamente, já não cheira bem, a princípio.

A princípio, pois política não é aritmética econômica. Em 2003, o Brasil namorava o colapso e as condições materiais de vida eram muito piores, mas o eleitorado tinha confiança em Lula da Silva e na melhoria econômica –é o que diziam as pesquisas de então.

Os tempos parecem outros, porém. Tivemos uma década de expectativas aumentadas de melhorias. Há muito adulto que não conheceu a vida de crises do final do século passado. Anos de democracia e as administrações do PT, goste-se ou não delas, mudaram os termos da conversa entre pobres e governo; a conversa em geral sobre pobreza. A tolerância com “políticos” anda baixíssima. A população é mais educada, conversa pelas redes, tem mais voz e ouvidos políticos.

Dada a melhora das condições de vida, parece que seria menos difícil administrar as insatisfações dos períodos de baixa econômica. Mas nem isso. Mudamos. Se precisávamos de um exemplo, considere-se julho de 2013 e seus estilhaços.

Isto posto, o que os candidatos têm a dizer ao eleitorado, o que decerto vai influenciar os cidadãos sob o novo governo? A pequenez dos discursos, mais do
que decepcionar, preocupa. Há um problema sério de expectativas para “administrar”, econômicas e, mais desprezado, políticas.

As dificuldades do próximo governo já estão salientes no final mesmo deste. Note-se o esfriamento do mercado de trabalho, um dos dois últimos esteios “econômicos” do prestígio oficial (o outro são os programas sociais). Note-se agora o definhamento da receita de impostos, que já não bastava para bancar o gasto social ou qualquer outro.

A receita do governo federal não cresceu quase nada neste ano, até maio. As contas não estavam tão estouradas desde meados da década passada, quando no entanto o país pagava uma conta de juros muito maior. O governo gastou o que não tinha a fim de manter uma estabilidade, quase-estagnação, precária.

A receita não cresce porque a renda do país, o PIB, quase não cresce, porque o governo reduziu impostos cobrados de empresas, porque o nível de emprego cresce (e crescerá) devagar, porque o ritmo de formalização da economia diminuiu (entra menos dinheiro de empresas e salários que não pagavam impostos porque eram “informais”).

Raspa-se o resto do fundo do tacho do “modelo”, ou seja lá como se chame o que foi feito nos últimos cinco anos. Um governante de visão e convicções tem de explicar como vamos chegar a um acordo para sair disso.

Fonte: Folha de São Paulo

Maurílio Fontes

Proprietário, jornalista, diretor e responsável pelo Portal Alagoinhas Hoje