O caso David Miranda e a projeção do Brasil – Bruno Lima Rocha

O caso do brasileiro David Miranda, estudante de comunicação social, e sua retenção por nove horas no aeroporto de Heathrow (Londres), materializam mais um episódio que obedece a uma lógica determinada pela estratégia dos EUA. Como se sabe, Miranda é companheiro do jornalista inglês, Glenn Greenwald, que escreve para o The Guardian.

O alvo de suas investigações – o sistema de espionagem eletrônico dos EUA – foi à causa da detenção de seu parceiro, “justificada” pelo governo de Cameron a partir do estatuto de defesa interna e contra-terrorismo.

Podemos ler este gesto como uma retaliação a Gleenwald, dado o alinhamento automático da estratégia britânica para com a projeção mundial dos Estados Unidos. Infelizmente, a indignação de parte da opinião especializada brasileira tem dois pesos distintos.

Episódio semelhante e ainda mais vexatório ocorreu quando o avião presidencial da Bolívia, com o chefe de governo a bordo, foi detido em aeroportos europeus e revistado. A aeronave do presidente é território soberano do país, tal como embaixadas e consulados.

Na ocasião, os críticos brasileiros comentaram se tratar de um país sob governo bolivariano, logo “suspeito” de favorecimento dos dissidentes da potência hegemônica. Especificamente, desconfiava-se da presença de Edward Snowden no avião de Evo Morales.

O debate no Brasil fomentava críticas ao presidente boliviano e aliado ao finado Hugo Chávez. E agora, como justificar a retenção do cidadão brasileiro? Por suas relações pessoais com um repórter estadunidense?

Trata-se de dois problemas de ordem distinta. No Brasil, ainda temos muitos formadores de opinião e especialistas a reproduzir a máxima do período da Bipolaridade, dizendo que “o que é bom para os EUA é bom para o Brasil”. Tamanha asneira reflete o pensamento colonial que atravessa parcela da inteligência daqui.

Outro problema é reconhecer que para a hegemonia dos Estados Unidos, a vigilância eletrônica é um imperativo. A alegação é a guerra contra o terror, especificamente o combate livrado globalmente contra as redes integristas sunitas e cuja herança maldita foi Bin Laden e seus seguidores.

A conta é simples e os críticos nacionais não enxergam. Para os EUA, se o inimigo não tem rosto, logo as comunicações interpessoais são um alvo permanente. A lógica que vale para o opositor serve também para o concorrente. Já o fato Brasil ser alvo de monitoramento eletrônico deve ser visto como reconhecimento da destacada posição do país no sistema internacional.

Bruno Lima Rocha é cientista político e professor de relações internacionais.

Fonte: Blog do Noblat

Maurílio Fontes

Proprietário, jornalista, diretor e responsável pelo Portal Alagoinhas Hoje