Mulheres em estado de vulnerabilidade psicológica encontram afeto no Instituto Mãezona

Afetividade e acolhimento são palavras que conseguem resumir a metodologia de funcionamento do Instituto Mãezona, localizado em Camaçari, na Região Metropolitana de Salvador, que atende pessoas em situação de vulnerabilidade psicológica e social, em especial mulheres. Fundado por Déa Santos, uma das filhas de Ana Maria dos Santos, a quem a instituição é dedicada, o local funciona na casa onde a família morou por muitos anos, o que acaba passando para os integrantes uma sensação de lar e conforto.

Oferecendo atendimento psicológico, assistência social e atividades de autocuidado, o Instituto Mãezona atende muitas mulheres que foram vítimas de agressão física e psicológica. Muitas delas chegaram lá com transtornos de ansiedade, depressão, automutilação e estado de vulnerabilidade social, grande parte após sair de relacionamentos abusivos, e encontraram na instituição apoio, afeto e práticas de autocuidado que contribuem para a ressignificação de acontecimentos traumáticos em suas vidas.

Com questões não trabalhadas na infância, como solidão e falta de autoestima, E.N.J. se viu em um estado de dependência emocional com o ex-marido, que se agravou e se transformou em uma onda de tristeza com a separação. Durante o relacionamento, seu ex-companheiro chegava bêbado em casa, na maioria dos dias, e descontava a frustração na família.

“Eram brigas rotineiras, ele sempre chegava bêbado e afetava muito minha filha. Me afetava, mas eu achava que precisava dele. Quando vi que eu ia perder minha filha, decidi separar. Foi como se o mundo tivesse acabado, eu não tinha forças. Aquele mundo que ele tinha colorido quando ele veio”, contou ela, que tem uma filha de 15 anos, fruto do casamento que durou cerca de quatro anos, após retomarem a relação dez anos depois do fim de um namoro entre os dois, no passado.

Quando se viu em um estado de tristeza profunda, E. N. J. decidiu buscar apoio no Instituto Mãezona, que a acolheu e ofereceu atendimento. Segundo ela, quando passou a frequentar a casa de Dona Ana, sentiu que tinha uma família. A empatia no sorriso das voluntárias, os abraços e, principalmente, a escuta foram fatores que contribuíram para a recuperação da integrante, que após sessões de terapia e aulas de dança do ventre passou a lidar melhor com a própria imagem.

“Em uma das aulas de dança isso melhorou, porque no vídeo eu gostei de me ver pela primeira vez. Eu gostei do que eu vi e não me olhei com crítica”, contou, explicando que nunca foi ensinada a gostar de si mesma. “Quando vi que a aula de dança servia para que eu tivesse consciência do meu corpo, eu não entendi, hoje eu entendo. Quando tenho consciência do meu corpo, aquilo trabalha em eu me ver no vídeo e não me encher de crítica. Na verdade, eu achei bonito pela primeira vez. Aí me emociono, não de tristeza, mas porque eu nunca tinha conseguido me ver e gostar do que eu tinha visto”, relatou.

E. N. J. afirmou que as cores do mundo voltaram quando passou a frequentar o instituto | Foto: Felipe Iruatã | Ag. A TARDE
E. N. J. afirmou que as cores do mundo voltaram quando passou a frequentar o instituto | Foto: Felipe Iruatã | Ag. A TARDE
Hoje, essa flor é amarela, antes, ela não tinha a mesma cor, agora ela é colorida. É muito bom perceber que você pode viver feliz e eu não tinha essa noção de felicidade.

E. N. J.

Buscando atendimento psicológico para lidar com as próprias dificuldades, M. L. N. S. também encontrou um lar no Instituto Mãezona. Ela contou, em entrevista ao Portal A TARDE, que sofreu muito bullying na infância por ter uma deficiência. Além disso, ela viveu também muitos relacionamentos abusivos, o que contribuiu para que esses traumas lhe marcassem até a fase adulta.

“Quando eu me sentir realmente forte, pretendo contribuir para que a gente consiga multiplicar e ajudar outras mulheres a se fortalecerem e se sentirem capazes de enfrentar as adversidades da sociedade”, contou ela.

Seu primeiro relacionamento foi quando era bem jovem e, fruto disso, nasceu o seu primeiro filho, que hoje é sua filha, uma mulher transexual de 36 anos. Segundo ela, a aceitação nunca foi um problema, entretanto foi um processo muito longo, já que a filha se assumiu homossexual aos 13 anos e, aos 30, após uma crise de depressão, descobriu com a terapia que era o momento de fazer a transição.

“Eu aceitei de cara todas as duas transições. Sou uma mãe que passou por várias fases: aceitar, acolher, apoiar… Porém tudo isso é muito difícil, por conta de como fomos criados. Não tem sido fácil”, relatou.

M. L. N. S. contou que viveu dois relacionamentos abusivos, onde, no último, acabou sofrendo violências de todos os tipos, inclusive físicas. Após cerca de 20 anos ela conseguiu se separar e contou que viveu em uma espécie de campo de concentração em pleno século 21. “Anos depois eu me libertei e consegui criar asas, consegui viver e realizar sonhos. Hoje estou no terceiro casamento, mas eu digo que foi um encontro de almas”, disse alegre.

Com o apoio do Instituto Mãezona, a integrante passou a fazer psicoterapia e outras atividades, como as aulas de dança do ventre. “Tem melhorado minha autoestima, meu autoconhecimento, é um momento de descoberta. Acho que a autoestima é o ponto principal para todas nós, a nossa importância na sociedade, pois fomos criadas apenas para doar e servir, não a olharmos para nós mesmas”, finalizou.

A vivência de um relacionamento abusivo também foi realidade para A. A. S., que sofreu abusos psicológicos durante 14 anos de casamento. Quase diariamente ela ouvia que era feia, que não teria outra relação por conta da aparência ou por já ter filhos, que não tinha qualidade profissional ou acadêmica, dentre outras violências que só a fizeram reforçar a baixa autoestima que já tinha.

Separada há três anos por decisão própria, A. A. S. contou ao Portal A TARDE que de início o ex-marido não aceitou e acabou lhe ameaçando. Mesmo registrando queixa na Delegacia Especial de Atendimento à Mulher, ela não recebeu nenhum apoio do estado, que lhe rendeu medos e diversas inseguranças, além do sentimento de solidão.

Para ela, a consciência sobre o que tinha vivido começou a surgir quando encontrou o instituto, com a ajuda da filha. “Eu sou acompanhada pela psicóloga, faço meditação guiada e dança do ventre. Sempre que acontece alguma dificuldade, eu sempre lembro delas falando para ressignificar as coisas, quando eu estou pensando demais eu lembro de tomar conta dos meus pensamentos, ser uma observadora da minha mente. As vezes não quero levantar da cama eu lembro de Mikaely na aula de dança, ela sempre fala ‘cabeça e peito pra frente postura pra vida’, eu consigo levantar da cama e sair”, descreveu.

Trabalho multiprofissional

Com uma equipe de profissionais voluntários, o Instituto Mãezona conta com psicologia, aulas de dança e meditação, assistência social, dentre outros serviços. A psicóloga Tatiane Mota, a professora de dança do ventre Mikaely Cardoso e a assistente social Graciela Conceição Paz contaram que realizam um trabalho multiprofissional que, em muitos casos, dialogam entre si.

“Durante as escutas, quando eu observo a necessidade daquela mulher que precisa perceber que existe um corpo, que ela não é um ser qualquer, que existe movimento, que ela precisa de movimento, aí durante a psicoterapia eu encaminho ela para a dança do ventre. Quando há essa indicação a gente conversa a respeito da demanda e depois sobre a evolução”, explicou a psicóloga.

Mikaely reforçou o quanto a oficina de dança do ventre contribui para que as mulheres atendidas tenham consciência do próprio corpo, de forma integral, tanto físico quanto psicológico. De acordo com a professora, é um meio de acessar os conteúdos psíquicos, com o foco na dança e no movimento.

“É um trabalho fundamental. Para a gente enquanto profissional é mais do que se estivéssemos sendo remuneradas. Quando a gente consegue contribuir com a melhoria do outro não tem dinheiro que pague, porque a gente consegue ver a transformação dessas pessoas”, declarou a assistente social Graciela Paz.

A psicóloga Vanina Miranda da Cruz, do Conselho Regional de Psicologia da Bahia, explicou que o processo de superação de traumas vai estar diretamente relacionado à possibilidade de acessar espaços como o Instituto Mãezona e poder receber um acompanhamento adequado.

“Quando oferecemos um espaço de acolhimento específico estamos contribuindo com o fortalecimento social que é tão importante para a superação de traumas. E lá ela terá a possibilidade de ressignificar todos esses pontos que vão do individual ao macro”, concluiu.

 

Fonte: A Tarde

Maurílio Fontes

Proprietário, jornalista, diretor e responsável pelo Portal Alagoinhas Hoje