Mandato eletivo não é salvo conduto para enriquecimento ilícito – Maurílio Fontes

CRIFRÃO

Em tempo de Operação Lava Jato, com prisões de ex-detentores de mandatos eletivos e de importantes executivos, nada mais atual do que o título acima. As ações conjuntas da Polícia Federal e Ministério Público Federal, que desaguam na mesa do juiz Sérgio Moro, de certa forma, confrontam o velho patrimonialismo nacional, responsável ao longo dos séculos pelo saque dos cofres públicos em todas instâncias.

O problema é velho. Recentes, sem qualquer dúvida, são os desdobramentos das operações da Polícia Federal em diversos recantos do Brasil, sempre em busca de “descuidistas”, numa alusão ao jargão policialesco, que, de forma desmedida, avançam na direção dos cofres públicos das três esferas governamentais.

Os desvios de recursos públicos, em escala indecifrável, são costumeiros nas municipalidades, fazendo de antigos pobretões, totalmente despossuídos de bens materiais, os novos ricos, com luxos inimagináveis antes do exercício do mandato eletivo, verdadeiro balcão de negócios, espaço para intermediação de interesses escusos e de práticas de ilicitudes variadas, sempre no sentido de se assenhorar daquilo que deveria ser investido na melhoria da qualidade de vida da população.

A Nação precisaria de uma Polícia Federal multiplicada por dez para dar conta de tantos ladrões.

Mas sempre será um risco assaltar a res publica, como se ninguém estivesse percebendo a ascensão econômica do detentor de função eletiva, que não é e nem pode ser salvo conduto para enriquecimento ilícito.

Mas sempre haverá quem aceite correr os riscos inerentes às malandragens, trasvestidas de adjutórios para a manutenção do poder político, a partir de um processo de autoconvencimento megalomaníaco de que está fazendo a coisa certa, porque o poder é fugaz e exige que as atitudes sejam tomadas hoje para assegurar um futuro pessoal e familiar estável.

Estas práticas deletérias estão muito mais perto de todos nós do que imagina a nossa vã filosofia.

Numa inversão de valores, parte da sociedade, senão aplaude, aprova em silêncio obsequioso o enriquecimento de certos mandatários municipais, com o argumento de que também faria o mesmo se estivesse ocupando posição que facilitasse a prática de falcatruas. O velho patrimonialismo, como elemento do inconsciente social, é legitimador das safadezas.

O país, com valores tão desvirtuados, está mudando e cada vez mais o assalto aos cofres públicos se tornará um risco difícil de ser contornado, com ares de (falsa) legalidade e de manipulação contábil, visando impedir o rastreamento do caminho percorrido pelo dinheiro sujo.

Ontem, aos praticantes dos desvios não eram imputadas as penalidade legais. Hoje, o risco é muito grande e apostas muito altas podem se pagas com anos e anos de cadeia. 

Maurílio Fontes

Proprietário, jornalista, diretor e responsável pelo Portal Alagoinhas Hoje