Fafá de Belém na campanha das Diretas-Já

Em março de 1983 recebi uma música de Milton Nascimento e Fernando Brant. A canção chamava-se “Menestrel das Alagoas”. E eu me perguntei: por que eles me mandaram uma música em homenagem ao Djavan?

Quando chamei Wagner Tiso para fazer o arranjo, sabia que somente ele poderia colocar a música no tamanho dela, mas nunca imaginei que estaríamos escrevendo uma página rumo à redemocratização do Brasil.

Em agosto, Teotônio Vilela soube da gravação e quis ouvi-la. Ele chegou, muito abatido, com Miro Teixeira e João Araújo, ao estúdio da Som Livre. Ouviu a gravação e, a cada passo, um cheiro de almíscar se espalhava pelo estúdio. Ele estava chegando de Pouso Alegre (MG), de mais uma visita ao paranormal Thomas Green Morton e de uma nova tentativa para deter um câncer avassalador.

Acervo Pessoal
Fafá de Belém, o político Teotônio Vilela e o compositor Fernando Brant, no estúdio da Som Livre, em 1983
Fafá de Belém, o político Teotônio Vilela e o compositor Fernando Brant, no estúdio da Som Livre, em 1983

Ensimesmado, o senador pediu para dizer algumas palavras. E foram essas palavras que conduziram o Brasil rumo à democracia! Em determinado momento, ele deu uma poderosa gargalhada, e eu, outra.

Então, surpreendentemente, me disse: “Minha filha, nossas gargalhadas, juntas, podem fazer o chão deste país tremer!”. E continuou : “Saio desta caminhada pela anistia com muita dor e ainda cheio de sangue, mágoas, tristeza. Penso em cruzar o país pedindo eleições diretas, e já! Para isto, é preciso que nenhum partido se aposse… Terá que ser um movimento suprapartidário, e somente o espírito desarmado conseguirá agregar a todos. Uma caminhada que não pertença à ninguém; que tenha alegria e seja leve. Só assim faremos a transição democrática”.

E assim foi. Vilela morreu aos 66 anos, no dia 27 de novembro de 1983, em Maceió. Naquele mesmo dia, 15 mil pessoas se reuniram na praça Charles Miller, em São Paulo, para a primeira grande manifestação pelas eleições diretas, depois de quase 20 anos de ditadura.

Eu estava em Curitiba, no teatro Guaíra, quando soube da morte do senador. Peguei um táxi e viajei, a noite toda, até chegar a São Paulo, onde tomei um avião para Maceió. Ao sair do enterro, um sertanejo muito simples me segurou pelo braço e, com lágrimas nos olhos, disse: “Não deixe a gente só! Sem ele, o que vai ser de nós?”.

Voltei para São Paulo, e o pedido do sertanejo permanecia em minha cabeça. Liguei para Teozinho (Teotônio Vilela Filho, hoje governador de Alagoas) e contei-lhe a história. Falei-lhe da ideia de lançarmos o Movimento Suprapartidário pelas Eleições Diretas no dia 1° de janeiro, em Maceió, homenageando o velho Teotônio. Mas ele achou que poderia não dar certo, já que o evento seria durante as festividades de fim de ano.

Liguei para o político Marcos Freire (1931-87), que veio a São Paulo entusiasmado com a ideia. Combinamos o movimento para o dia 4 de janeiro, no pátio de São Bento, em Olinda, sob as bênçãos de dom Hélder Câmara.

Havia, porém, um problema: como divulgar o evento? O disco que tinha a canção “Menestrel das Alagoas” era da Som Livre, gravadora que produz e comercializa trilhas sonoras de programas da TV Globo. Dei a ideia de fazermos um show de lançamento para que a Globo pudesse anunciar. E assim foi.

Quando a voz de Vilela surgiu no meio da canção, bandeiras de todos os partidos de esquerda foram levantadas. Muitas faixas continham a expressão “Diretas Já!”. Era a voz de Vilela ecoando pelas ladeiras democráticas e libertárias de Olinda. Emocionante!

No dia 12 de janeiro de 1984, em Curitiba, ocorreu o lançamento nacional Diretas-Já, mas o comando da campanha, que era do PMDB paulista, não me convidou.

No 25 de janeiro (há 30 anos), dessa vez na praça da Sé, o mesmo comando cortou meu nome, alegando que eu não fazia parte de nenhum grupo historicamente ligado às lutas democráticas.

Mas um querido amigo chamado Luiz Inácio Lula da Silva, que fazia algumas reuniões em meu apartamento, quando a sede do PT não era segura o suficiente para certos encontros políticos, bateu o pé e disse : “Fafá, vem conosco!”.

Assim, reunimo-nos em minha casa para irmos, posteriormente, para o centro de São Paulo. E, da sede do Partido dos Trabalhadores, saímos de mãos dadas para nos encontrarmos com outros grupos, que também caminhavam de mãos dadas, comandados por Fernando Henrique Cardoso.

A nós juntaram-se outros, outros, e muitos outros… E seguimos, sempre de mãos dadas e democraticamente, para a praça da Sé.

Em minha mão, a caixa com a pomba branca que voaria naquele dia (e em muitos outros) levando a mensagem de esperança e construção de um novo país. Tudo ideia do genial Henfil, amigo pessoal de Vilela, que sugeriu que eu soltasse a pomba da paz enquanto a voz do senador ecoasse no silêncio das multidões.

Aí, começou a grande caminhada, a campanha das Diretas: a voz de um povo que estava sem garganta para falar.

FAFÁ DE BELÉM, 57, é cantora.

Fonte: Folha de São Paulo

Maurílio Fontes

Proprietário, jornalista, diretor e responsável pelo Portal Alagoinhas Hoje