Especialistas destacam a importância do aumento da participação feminina na política

Salvador é a cidade com o maior número de eleitoras do Brasil, representando 56% da população, de acordo com dados do cadastro eleitoral. Especialistas já apontam para o aumento nas candidaturas femininas e isso evidencia o quanto as mulheres estão cada vez mais engajadas no que diz respeito à participação na política.

Mesmo diante de dificuldades como duplas e triplas jornadas e o preconceito em um espaço dominado, majoritariamente, por homens brancos, elas estão se movimentando e dando respostas. Neste ano, segundo informações divulgadas pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), as eleições do Brasil já tiveram um recorde de mulheres candidatas. Com 526 mil pedidos computados, até o momento já representam 47 mil a mais do total de 2016. Até este domingo, 27, o percentual de mulheres candidatas era de 34%.

“As eleições de 2020 serão de novas caras, de múltiplas escolhas e de resistências. Pensar que Salvador só teve uma prefeita e o Brasil apenas uma presidenta em 131 anos de republicanismo, mesmo sob as ditaduras e suas indicações biônicas, causa enorme desalento. Temos duas candidaturas à prefeitura de mulheres negras e, como vice, mais representantes. Isso demonstra liderança, mudanças dentro dos partidos, que as ações de cotas – mesmo vindas dos anos 90 – passam a ganhar reforço. Não podem ser só eleitoras. São representações de coletivos e, em geral, estão vinculadas aos partidos de Esquerda. Existem inúmeras candidaturas de mulheres trans, indígenas, quilombolas, líderes comunitárias, jovens. Aí está a mudança de mentalidade acontecendo”, declarou a historiadora, coordenadora do Núcleo de Estudos sobre Educação e Direitos Humanos (NEDH/UCSAL), Vanessa Ribeiro Simon Cavalcanti.

De acordo com a Historiadora e Pesquisadora em Opinião Pública Jacqueline Quaresemin de Oliveira, no último pleito a Câmara Federal teve um aumento de 52%. Ou seja, de 51 para 77 deputadas eleitas em relação a 2014. Porém, no Ranking Interparlamentar, que levanta dados em 191 países, o Brasil está ocupando a 140ª posição na representação feminina do legislativo.

“Há um ativismo político, principalmente entre mulheres jovens, com maior engajamento em grupos feministas. Mas tais ações ainda não se traduzem nas instâncias de poder e decisão. Tem-se no legislativo federal 14,62% na Câmara e 13,58% no Senado. Nos legislativos estaduais são 11,6% e no legislativo municipal são 13,6%. Há uma mulher no executivo Estadual e 11,6% no Executivo Municipal. Em se tratando de eleições municipais, importante lembrar que mulheres são prefeitas em 7% dos municípios brasileiros pequenos (mais de 90% com população até 50 mil habitantes) e pobres”, explicou a pesquisadora.

Ela pontuou ainda que as mulheres negras quase inexistem na política. Segundo a especialista, há uma expectativa de aumento nessa eleição devido à tendência mundial do ativismo negro.

A cientista política Bruna Werneck avalia que o quadro da participação política das mulheres no Brasil vem evoluindo, porém ainda possui um longo caminho a percorrer, mesmo diante de algumas conquistas. Ela afirmou que é perceptível a dificuldade de muitos partidos em cumprir a cota de 30% das candidaturas femininas ao legislativo.

“Como eles têm dificuldades de preencher a cota, temos muito o que caminha nesse sentido, e estamos olhando o quadro eleitoral, que é a pontinha do iceberg da participação feminina na política. Se a gente olha os sindicatos e outros espaços de organização política, as mulheres também tendem a ser minoritárias, mas vejo mais mulheres se engajando na política e isso é, sem dúvida, positivo”, ressaltou a cientista política.

Diversidade e avanços

Até hoje é possível se deparar com o discurso de que “as mulheres não gostam de participar da política” ou que “não se encontra mulheres para entrar na política”, como lembrou Jacqueline. Contudo, essa realidade evidencia a importância de questionar o motivo da dificuldade em preencher a cota mínima de gênero em pleitos eleitorais se, segundo a pesquisadora, as mulheres são 44% dos filiados em partidos políticos.

“A obrigatoriedade do voto a partir de 1946 é que começa a ampliar o sufrágio feminino, pois antes disto, e dependentes economicamente dos maridos, pais e irmãos, cabia a estes decidirem se a esposa, filha ou irmã exerceria ou não seus direitos políticos. Regra definida para preservar a autoridade masculina. Ou seja, a presença da mulher na política brasileira é resultado de anos de patriarcado onde as mulheres foram tuteladas em suas escolhas políticas”, declarou Jacqueline Quaresemin.

Apesar de estar elegendo mais mulheres, Bruna Werneck ressaltou que há lutas duras para não perder certos direitos conquistados. Ela lembrou do caso da criança que sofreu pedofilia e acendeu um debate sobre o aborto.

“Nem nesse caso de dupla violência, de estupro e arriscar a vida dessa mãe-menina, essa questão do aborto não foi pacificada, então a gente vê muitos revezes. Em um primeiro momento parece uma contradição com a participação de mulheres na política”, disse.

Para Werneck, a participação das mulheres é crucial para políticas universais, pois a sociedade é estruturada de forma que o Estado não chega da mesma forma para todos e, por isso, a diversidade na representação é importante, para que pessoas, ao legislar, tenham perspectivas diferentes, pois isso afeta a vida da população.

O eleitor

Questionadas se o aumento da participação de mulheres na política tem a ver com o perfil do eleitor, elas avaliaram que existe uma certa parcela, entretanto, a maior causa desse aumento vem da conscientização feminina sobre a importância de estar nesses espaços. Segundo Jacqueline Quaresemin, as redes sociais também contribuem para que as mulheres possam ter um pouco mais de visibilidade.

“Em 2020 havia grande expectativa com aumento de eleição de mulheres, o que pode (tem-se que observar o processo e os resultados) ter sido afetado pela pandemia, que jogou as mulheres para dentro de casa, em tripla jornada. Além de aumento de violência doméstica como mostram alguns estudos e instituições de pesquisa sobre questões de gênero”, ressaltou a pesquisadora.

Bruna Werneck completou avaliando que ainda é uma questão muito elitizada. “Uma população mais jovem, universitária, que vem tomando consciência da importância dessa diversidade. De um modo geral, acho que isso veio muito pela legislação, com a obrigação de ter 30% das candidaturas de mulheres, o que faz com que os partidos tenham interesse em abrir espaço para isso”, pontuou a cientista política.

Ampliação da democracia

A jornalista, doutora em Ciências Sociais e professora do Departamento de Estudos de Gênero e Feminismo da Universidade Federal da Bahia (UFBA) Maíra Kubík Mano destacou que a participação das mulheres amplia a democracia brasileira, que já é bastante restrita. Segundo ela, a democracia não é equivalente para todos os cidadãos, já que o país tem uma democracia com cidadanias diferenciadas ao invés de igualitária.

“A nossa é majoritariamente branca, masculina e heterossexual. Esse é o perfil da maioria das pessoas eleitas. Isso significa que o conjunto da população não está representado neste perfil. As mulheres participando da política significa uma ampliação da democracia”, afirmou.

Para Kubík Mano, com a participação feminina na política, as mulheres estarão em um espaço onde as decisões sobre a vida das pessoas são tomadas. A professora ainda pontuou a necessidade de acompanhar essas mulheres após as eleições. Ela citou que é muito comum o debate sobre a dificuldade das mulheres em chegar aos cargos, mas não acompanhá-las quando chegam ao parlamento.

“É muito comum debater a dificuldade das mulheres em chegar aos cargos ao serem eleitas, porque os partidos não apoiam as candidaturas femininas, dão preferências as masculinas, porque elas não têm tanto financiamento de campanha, porque existe uma questão da divisão exual do trabalho, porque as mulheres acumulam com o trabalho doméstico. É uma série de impedimentos que dificultam a participação da mulher na política. A gente costuma discutir muito isso, mas discute pouco o que acontece depois que elas chegam ao parlamento, de que forma elas exercem seus mandatos e se elas conseguem representar os direitos das mulheres ou não”, declarou, apontando que são questões relevantes para serem discutidas após as eleições.

Perspectivas

Para Bruna Werneck, as perspectivas para as mulheres tendem a ser boas, mas não se espera uma enorme transformação em relação ao que já se vive. “Porém, pelos motivos que falei da cota de candidaturas, recursos partidários e por algum aumento, mesmo que não seja em toda população, mas com uma maior consciência de que a diversidade é importante e a tendência é que vá conquistando maiores espaços.”

“Não imagino uma grande revolução e grande transformação nesse quadro, mas espero que a gente consiga ter mais prefeitas ano que vem do que temos esse ano”, disse.

“Se, historicamente, a Bahia e Salvador não tiveram muitas mulheres na liderança da gestão municipal com representatividade e reconhecimento, talvez seja justamente essa permanência, essa mesmice de heranças e sobrenomes que tenham impulsionado candidaturas coletivas e em prol do viver as cidades de outra maneira”, provocou Vanessa Ribeiro Simon Cavalcanti.

A historiadora ainda frisou que, em 2020, com um cenário de pandemia e mudanças comportamentais e grandes desafios, olhar para o lugar que se vive será essencial. “Particularmente acredito que pessoas ‘comuns’ possam, sem vícios públicos e benefícios privados, assegurar promoção de direitos. Saindo de seus lugares para entrar em uma zona distinta, não só partidária, mas de ações, agendas e planos que devem refletir coletividade”, concluiu.

 

Fonte: A Tarde

Maurílio Fontes

Proprietário, jornalista, diretor e responsável pelo Portal Alagoinhas Hoje