Entrada da Petrobras em consórcio vencedor do campo de Libra inibiu concorrência

A entrada da Petrobras em um consórcio para elevar sua participação no campo de Libra, vendido anteontem pelo governo, inibiu a formação de outros consórcios, avaliaram participantes do processo.

“A Petrobras já seria operadora de qualquer jeito, se decidiu fazer um consórcio, era para ganhar, e o melhor era ir com ela”, disse à Folha o presidente da Ecopetrol no Brasil, João Clark.

A Petrobras ganhou ontem, sem nenhuma concorrência, o contrato de partilha para explorar o campo de Libra, onde se estima que tenham recursos recuperáveis de 8 bilhões a 15 bilhões de barris de petróleo, quase o total das reservas brasileiras.

A estatal já tinha 30% obrigatórios e comprou mais 10%, ficando como maior acionista individual no campo.

A Petrobras fez parceria com duas empresas chinesas (CNPC e Cnooc), com a anglo-holandesa Shell e a francesa Total, formando um superconsórcio com companhias que estão entre as 15 maiores do mundo. Com isso, garantiu a vitória sem ágio sobre o percentual mínimo de petróleo que terá que entregar para a União.

Pelo edital, o consórcio para disputar Libra teria no máximo cinco integrantes.

Clark informou que torceu até uma semana antes do leilão para que algum dos sócios da Petrobras desistisse, e até conversou com outras empresas, como a indiana ONGC, para tentar formar um segundo consórcio, sem sucesso. Apenas a Petronas, da Malásia, não chegou a ser sondada para uma parceria.

“Tentamos de todas as maneiras entrar nesse consórcio [da Petrobras]”, lamentou. Ele torce agora para a realização de um segundo leilão do pré-sal e diz que os planos da empresa são de crescer no Brasil.

Clark explicou que a formação de um segundo consórcio fracassou porque, das sete empresas habilitadas como operadora A, ou seja, que tinha direito a liderar um consórcio, quatro estavam com a Petrobras, que também é A. As duas restantes eram a ONGC e a Petronas, que ficaram de fora.

A portuguesa Petrogal também sonhava com uma fatia de 10% no consórcio da Petrobras, depois que os planos de ir com a espanhola Repsol e a chinesa Sinopec foram por água abaixo, informou uma fonte da indústria.

A Sinopec se inscreveu para o leilão em parceria com a Repsol, mas foi impedida na última hora pelo governo chinês de concorrer com as outras empresas do seu país, que ficaram no consórcio com a Petrobras. Insatisfeita, a companhia espanhola informou na manhã do leilão que havia desistido de concorrer.

Para o diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura Adriano Pires, o modelo adotado no país para a venda do pré-sal é “perverso”.

“Se você já diz que a Petrobras será operadora única, não deveria deixar a Petrobras entrar no leilão. Na medida em que ela entra no consórcio, você desestimula a criação de outros, todos querem ir com a Petrobras.”

Ele afirmou que o maior perdedor do leilão de anteontem foi o próprio governo e que, por mais que seus integrantes tentem disfarçar, um leilão sem ágio sempre será considerado um fracasso.

Fonte: Folha de São Paulo

Maurílio Fontes

Proprietário, jornalista, diretor e responsável pelo Portal Alagoinhas Hoje