Doleiro preso pela PF já foi contrabandista e vendedor de pastel

Numa conversa telefônica captada pela Polícia Federal, o doleiro Alberto Youssef resume a montanha-russa que é a sua vida: “Meu amigo, eu tinha US$ 150 milhões na conta. Eu quebrei, fiquei com US$ 20 [milhões] negativo. Paguei todo mundo”, conta, logo após elogiar a própria ética: “Aqui não tem safado, aqui tem pai de família, gente séria mesmo”.

Youssef sabe o que é conviver com polaridades do tipo “milionário x quebrado” ou “gente séria x safado”.

O seu primeiro trabalho foi vender pastel quando tinha cerca de 9 anos, no aeroporto de Londrina, no norte do Paraná, onde foi criado.

Aos 17, já havia aprendido a pilotar monomotores, segundo seus amigos, e ingressou no ramo que o pai e uma irmã já atuavam: o contrabando de produtos eletrônicos do Paraguai. Foi por meio de outra irmã, dona de uma casa de câmbio do lado paraguaio, que ele aprendeu o ofício de doleiro.

Ela confiou a ele, nos anos 1990, uma casa de câmbio de Londrina que atuava no mercado paralelo.

Aos 47 anos, Youssef tem uma folha corrida que já conta com oito prisões: cinco da época em que era contrabandista, duas no início dos anos 2000 por atuar como doleiro e, finalmente, uma no último dia 17 de março, quando foi apanhado pela Operação Lava Jato, da PF, sob acusação de comandar um esquema de lavagem de dinheiro que movimentou R$ 10 bilhões.

Grandes cifras não são uma novidade para Youssef. Quando foi preso preventivamente no início dos anos 2000, sob acusação de usar uma agência do Banestado -banco do governo do Paraná- para fazer remessas ilegais para o exterior, duas contas dele haviam movimentado US$ 832 milhões em apenas dois anos (1997 e 1998), segundo laudos da PF.

O chamado caso Banestado foi o maior escândalo já investigado no Brasil sobre remessas ilegais. As movimentações chegaram a US$ 28 bilhões, segundo o Ministério Público Federal, que criou força-tarefa para investigar o caso entre 2003 e 2007.

O DELATOR
Youssef deixou a prisão em 2004 porque fez uma delação premiada: disse ter contado tudo o que sabia em troca de perdão e prometeu abandonar a atividade. Ele confessou que era o doleiro dos doleiros (“98% da minha clientela eram doleiros”), ou seja, era uma espécie de Banco Central que cuidava das compensações dos seus pares.

Entregou os maiores doleiros do país e duas instituições que viriam a se tornar famosas no mensalão do PT: o Banco Rural e a corretora Bônus Banval. Um dos contatos de Youssef no Rural, segundo ele, era José Roberto Salgado, que se tornaria vice-presidente e seria condenado a oito anos de prisão no mensalão.

O Rural fez empréstimos ao PT considerados simulações no julgamento no STF. Já a corretora cuidava do pagamentos a deputados do PP.

Há indícios, segundo a polícia, de que foi Youssef quem colocou a Bônus Banval no esquema do mensalão. Um dos deputados federais do PP pagos pela corretora, José Janene, que morreu em 2010, também vivia em Londrina e era amigo do doleiro.

Sobre a sua clientela política de uma década atrás, foi avaro. Entregou alguns secretários do então governador do Paraná, Jayme Lerner, que escaparam de punição.

MUSCULATURA POLÍTICA
A volta de Youssef ao mercado paralelo foi descoberta por acaso. Numa apuração sobre um doleiro de Brasília, eis que surge Youssef falando de milhões de dólares, com nova rede de contatos e novo “modus operandi”.

A nova rede incluía um ex-diretor da Petrobras, Paulo Roberto Costa, e um rol de políticos que vai do deputado federal André Vargas (PT-PR) a integrantes do PP e PMDB.

Foram esses contatos políticos que levaram Youssef a tentar parcerias com o Ministério da Saúde, usando um laboratório quebrado, o Labogen, e até a tentar comprar um fornecedor da Petrobras, a EcoGlobal, logo depois de a estatal ter fechado um contrato de R$ 444 milhões com essa empresa do Rio.

As escutas da PF apontam que ele voltou ainda mais poderoso do que uma década atrás. Além da musculatura política, tinha um patrimônio muito maior do que havia acumulado quando prometera deixar o mercado paralelo. Havia adquirido participações em hotéis em Londrina, Aparecida (SP), Salvador (BA) e Porto Seguro (BA), e vivia num apartamento de cerca de R$ 2,5 milhões num dos bairros mais caros de São Paulo, a Vila Nova Conceição.

Seu patrimônio é estimado pela PF entre R$ 20 milhões e R$ 30 milhões, sem incluir as contas abertas no exterior e eventuais propriedades em nome de laranja, uma das especialidades de Youssef.

O “modus operandi” do doleiro se sofisticou. Em vez de usar os dados de pessoas simples para remeter dólares para o exterior, como aconteceu nos anos 1990, ele partira para a simulação de importação e exportação, usando empresas em nome de laranjas.

Fonte: Folha de São Paulo

Maurílio Fontes

Proprietário, jornalista, diretor e responsável pelo Portal Alagoinhas Hoje