Cresce número de empregados domésticos com curso superior

Está nos bancos das universidades um retrato claro da mudança que ocorreu na última década no universo dos trabalhadores domésticos. Não foi só o número de empregados que diminuiu nem só o salário médio que subiu: eles se qualificaram.

Há hoje no Brasil 63,4 mil trabalhadores domésticos com diploma universitário.

É pouco menos de 1% do total de 6,6 milhões de empregados que atuam hoje no Brasil, mas o crescimento é vertiginoso. Em 2002, não chegavam nem a 6.000, ou 0,09% do total da categoria naquela época.

Os dados foram compilados pelo professor José Pastore, especialista em relações do trabalho, a partir de informações das Pnads (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) de 2002 e 2011, realizadas pelo IBGE.

Diferentemente de outros profissionais que aos 20 ou 30 anos chegam à universidade, a maior parte dos domésticos vai para a sala de aula aos 40, 50 anos.

Isso porque, há alguns anos, era preciso antes cuidar da casa, da família e de seus patrões. “Era proibido estudar. Quem estudava ia para a rua”, diz Benedita Gonçalves Lima, 57, que aos 12 anos já trabalhava como empregada em São Paulo.

A primeira família que a empregou se recolhia cedo para dormir. Mas ela ainda se recorda da época em que esses mesmos patrões batiam na porta de seu quarto para que ela servisse as visitas.

Quando sua irmã saiu de Minas Gerais para trabalhar em São Paulo, ela veio junto e as duas encontraram emprego na casa de uma família de comerciantes árabes na avenida Paulista.

“A minha irmã se casou e arranjei emprego de cozinheira, aos 15 anos, com outra família. Era um tempo em que nem carteira assinada existia”, diz.

Aos 19 anos, foi a sua vez de se casar. Conseguiu, aos poucos, fazer um curso técnico de enfermagem. “Mas sempre gostei de cozinhar, desde pequena. Aos 9 anos, colocava o caixote do lado do fogão a lenha em Minas para fazer comida para a família.”

Foi só lá pelos anos 90, ao trabalhar em Santo André, região do ABC paulista, aos 30, que ela conseguiu o primeiro registro em carteira no setor de doméstica.
salário maior

Anos depois, mãe de três filhos e avó de quatro netos, decidiu ir para a faculdade. O curso escolhido, diverte-se, não poderia ser outro: gastronomia.

“Na minha turma, só haviam duas outras amigas na mesma faixa de idade: uma bancária e uma dona de casa. Doméstica mesmo, só eu”, diz Benedita, que está formada há um ano após estudar em uma faculdade da região central de São Paulo.

O que a motivou a estudar, diz a profissional, foi a possibilidade de conseguir um salário maior.

Antes do curso, o ganho mensal era de R$ 900. Com o diploma em mãos, foi trabalhar na casa de uma estilista e a remuneração é, segundo diz, é quase quatro vezes maior.

“A faculdade me valorizou. Quando cheguei nesse emprego, impus minha condição: sou gastrônoma formada. Quero ganhar tanto. Muito diferente do passado”, diz.

O que acontece no setor doméstico não é diferente do que acontece com os demais. A diferença média de salário entre os brasileiros com diploma e os que não têm diploma foi de 219,4% em 2011, segundo dados divulgados recentemente pelo IBGE.

FORA DA ÁREA

Colega de profissão e de panela de Benedita, Claudenice Santana da Silva, 51, optou por uma área distante do serviço doméstico.

“Gosto de administração e pretendo atuar no setor público. Sinto que, apesar de toda a melhora, o trabalho de doméstica, cozinheira ou faxineira ainda não é valorizado e há muito preconceito.”

Hoje estudante do segundo ano de administração na universidade Anhanguera, o que mais lhe incomodava na profissão era estar “à disposição” quando dormia na casa onde trabalhava.

“Eram jornadas longas, de até 15 horas por dia. Tinha de acordar às 6h para aprontar o café da manhã”, diz Claudenice.

Dos tempos de doméstica, a estudante traz outra recordação: a da patroa que escondia o pudim na geladeira para que só o marido comesse.

“Eu tinha 16 anos e isso me marcou. Comi, de marra mesmo, escondido, e não falei nada. No outro dia, ela fez um novo doce e me ofereceu. Muito feio isso, eu jamais comeria tudo. Foi uma atitude muito mesquinha”, afirma.

Claudenice buscou ajuda do Fies (Fundo de Financiamento Estudantil), programa do Ministério da Educação, para pagar parte dos R$ 700 mensais do curso, após ter trabalhado como cozinheira, cuidadora de idosos e outras funções no ramo doméstico. Hoje, aguarda um estágio em administração.

“Fui avó com 35 anos. Minha filha, hoje aos 32, já cursa nutrição. Meus netos estudam e é assim que tem de ser”, diz.

INSISTÊNCIA

Benedita da Silva, 52, está no segundo ano do curso de pedagogia, na Uniesp, em Sorocaba (SP).

Aos 12 anos teve de abandonar os estudos para trabalhar como doméstica e voltou a estudar depois de 40 anos longe da sala de aula. Fez cursos supletivos para recuperar o tempo perdido.

Apesar de não ter carteira assinada, o atual “chefe” permite fazer um horário flexível para que ela consiga conciliar o emprego com os estudos. “O combinado é deixar tudo limpo na casa, sem hora fixa de chegada e saída”.

A partir da próxima semana, começa a estagiar na área e não sabe ainda se conseguirá manter os dois empregos.

“A mudança [a faculdade] está fazendo muito bem para mim. Estou saindo do meu ‘mundinho’ e vendo que o mundo é maior. Não é só aquilo de lavar, cozinhar, passar e voltar para casa.”

“Ganhei essa autonomia e mais confiança em mim.”

Para o futuro, os planos já estão traçados: quer fazer outro curso, de biologia ou química, e ser professora no ensino médio. “Se bem que dizem que é uma loucura dar aula para adolescente”, diz.

Enquanto ocupa a função de aluna, sua maior dificuldade é aprender matemática. “Não vejo que os outros têm tanta dificuldade. Mas vejo a dificuldade em mim porque fiquei muito tempo fora da sala de aula”, afirma.

Fonte: Folha de São Paulo

 

Maurílio Fontes

Proprietário, jornalista, diretor e responsável pelo Portal Alagoinhas Hoje