Comunicação pública municipal: estratégias a partir dos conceitos de Bakhtin – Maurílio Lopes Fontes

A comunicação pública nas prefeituras enfrenta um desafio estrutural: sair de um modelo informativo, unilateral e frequentemente burocrático para um modelo relacional, dinâmico e socialmente enraizado.
Em outras palavras, não basta comunicar – é preciso dialogar. É justamente nesse ponto que os estudos de Mikhail Bakhtin oferecem uma base teórica robusta para redefinir as estratégias de comunicação pública no âmbito local.
Bakhtin não compreende a linguagem como um instrumento neutro ou meramente técnico. Para ele, toda comunicação é atravessada por vozes sociais, por disputas de sentido e por contextos históricos específicos. Ao trazer essa perspectiva para a gestão municipal, especialmente na realidade baiana – marcada por diversidade cultural, desigualdades estruturais e forte presença da oralidade -, abre-se uma possibilidade concreta de reconfiguração das práticas comunicacionais do poder público.
A comunicação deixa de ser um canal de transmissão e passa a ser um espaço de disputa simbólica.
Essa compreensão desloca o centro da estratégia. A comunicação pública não pode mais ser pensada como um ato de emissão controlada, no qual a prefeitura produz mensagens e a população apenas as recebe. Toda enunciação, segundo Bakhtin, é essencialmente dialógica: ela responde a outras falas e antecipa respostas futuras. Isso significa que nenhuma mensagem institucional é interpretada de forma isolada. Ela será sempre atravessada por experiências anteriores, por expectativas sociais e por narrativas concorrentes que circulam no território.
No contexto das prefeituras, isso implica reconhecer que o poder público não controla plenamente o significado do que comunica. A população interpreta, ressignifica e redistribui essas mensagens. Mesmo o silêncio institucional produz efeitos, muitas vezes abrindo espaço para que outras vozes organizem a narrativa. Assim, comunicar não é apenas informar, mas disputar sentidos em um campo simbólico permanentemente ativo.
O conceito de dialogismo, nesse cenário, exige uma transformação profunda das práticas comunicacionais. Se toda fala é resposta a outra fala, então a comunicação pública precisa necessariamente incorporar a escuta como elemento estruturante. Não se trata de uma escuta protocolar ou eventual, mas de um processo contínuo de interação com a sociedade. A prefeitura deixa de falar para o cidadão e passa a falar com ele – reconhecendo-o como sujeito ativo na construção do discurso público.
Essa mudança é essencial visto que o entendimento sobre a política se constrói intensamente nos espaços cotidianos de convivência. A conversa informal, a troca de experiências e a circulação de narrativas têm um peso decisivo na formação da opinião pública. Ignorar essa dimensão é comprometer a eficácia da comunicação institucional.
Uma gestão que não escuta não dialoga. E uma gestão que não dialoga perde progressivamente a capacidade de influenciar a forma como é percebida.
É nesse ponto que o conceito de polifonia ganha centralidade. Desenvolvido por Bakhtin a partir da análise literária, especialmente da obra de Dostoiévski, o conceito de polifonia refere-se à coexistência de múltiplas vozes autônomas em um mesmo espaço discursivo.
Transposto para a comunicação pública, isso significa reconhecer que a prefeitura não é uma voz única e homogênea. Diferentes secretarias, agentes públicos e grupos sociais produzem discursos próprios, que circulam simultaneamente e influenciam a percepção coletiva sobre a gestão.
Uma estratégia comunicacional baseada na polifonia não busca eliminar essa diversidade de vozes, mas organizá-la. O desafio não é silenciar as diferenças, mas articulá-las de forma coerente, de modo que a multiplicidade não se transforme em ruído. Isso exige coordenação interna, alinhamento narrativo e, sobretudo, reconhecimento da legitimidade das vozes sociais que emergem fora do aparato institucional.
Nesse sentido, a comunicação pública precisa integrar discursos, evitar contradições e construir narrativas que dialoguem com a diversidade social do município. Ao mesmo tempo, deve incorporar as vozes da população, valorizando experiências concretas, relatos cotidianos e identidades locais.
A comunicação deixa de ser apenas institucional e passa a ser também socialmente compartilhada.
A partir dessa base teórica, é possível compreender que a comunicação pública municipal deve ser estruturada como um sistema permanente de escuta, tradução e articulação. Escuta, porque é necessário captar percepções, demandas e interpretações que circulam na sociedade.
Tradução, porque as ações de governo precisam ser convertidas em linguagem compreensível e conectada à vida cotidiana. E articulação, porque é preciso organizar as múltiplas vozes em uma narrativa coerente que dê sentido às ações da gestão.
Além disso, é fundamental reconhecer que toda ação pública será inevitavelmente interpretada. Não existe política sem interpretação. Por isso, a comunicação deve atuar também de forma preventiva, antecipando disputas de sentido e evitando vazios narrativos que possam ser ocupados por versões distorcidas ou adversas. Governar, nesse contexto, é também gerir significados.
A principal contribuição de Bakhtin para a comunicação pública reside justamente nessa compreensão ampliada da linguagem. Comunicar não é transmitir informações, mas participar de um processo contínuo de construção de sentido.
Governar não é apenas executar políticas, mas também produzir interpretações sobre essas políticas em diálogo com a sociedade.
Nas prefeituras, onde a proximidade entre governo e população intensifica a circulação de narrativas e percepções, essa dinâmica se torna ainda mais evidente.
A imagem de uma gestão não é definida apenas pelo que ela faz, mas pela forma como suas ações são compreendidas, discutidas e ressignificadas no cotidiano.
Aplicar Bakhtin à comunicação pública, portanto, não é um exercício abstrato. É uma mudança de paradigma.
Significa compreender que a comunicação é parte constitutiva da própria gestão.
Significa reconhecer que o poder público não fala sozinho.
E significa, sobretudo, entender que, na política, ser compreendido é uma das formas mais concretas de exercer poder.
QUEM FOI (É) MIKHAIL BAKHTIN
Maurílio Lopes Fontes é bacharel em Marketing, especialista em Marketing Político, Mídia, Comportamento Eleitoral e Opinião Pública (UCSAL), especialista em Assessoria Política e Governo (UCSAL), MBA em Comunicação Governamental e Marketing Político (IDP/Brasília), especialista em Estratégia e Liderança Política (Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo – FESPSP), especialista em Gestão da Cultura Organizacional (Fundação Armando Alvares Penteado – FAAP), Formação em Governança e Inovação Pública (FGV/RJ), Diplomado em Gestão de Governo e Liderança Política (George Washington University – EUA) e Mestre em Marketing, Comunicação e Consultoria Política (Espanha)
Imagem gerada por IA (13.04.2026)

