Com influência dos terreiros, samba duro junino resiste na Bahia

A diferença está apenas na numeração. As camisas quadriculadas de Lázaro José, 54, e João Pedro, 9, têm as mesmas cores e desenhos. A semelhança dos trajes indica um desejo angustiado. O pai enxerga no filho uma nova oportunidade de manter o legado do samba duro junino na família.

João, fruto de um segundo casamento, ainda ensaia os primeiros toques no tamborim. Da primeira união, Lázaro tem outros sete mais velhos.

“Quando eles eram pequenos levava para os ensaios. Mas eles foram crescendo e deixaram de ir. Três deles entraram para a igreja evangélica. Hoje ficam me cobrando pra sair do samba. Não entendem que isso aqui é minha vida”, diz.

A implicância dos primogênitos tem relação direta com a origem do ritmo. O samba duro vem dos terreiros de Salvador. Estabelecer a data de surgimento é bastante controverso: entre as décadas de 1960 e 1970, afirmam os mais antigos, sem exatamente conseguir precisar o ano.

Ele é uma variante direta do samba de caboclo, aquele tocado com atabaques para reverenciar entidades místicas da cultura afrobrasileira, tanto do candomblé quanto da umbanda. A velocidade é mais acelerada que o samba de roda, por exemplo.

“Todo mundo aqui tem seu orixá. Só que no candomblé a gente usa atabaques. No samba duro, o instrumento percussivo é o timbal [espécie de tambor]”, diz Lázaro.

Seu orixá parece indicar a disputa religiosa e semântica travada com os filhos neopentecostais. Ele é de Obaluayê (orixá ligado ao mundo dos mortos). O personagem Lázaro, do qual seu nome deriva, na Bíblia, é ressuscitado por Jesus como prova de um de seus milagres.

Nos últimos dois anos, de acordo com a secretaria de promoção racial, houve um aumento de 124% de crimes de intolerância religiosa registrados na Bahia —a maioria envolvendo religiões de matriz africana. Grupos evangélicos negam que orientem seus fiéis a praticar ações discriminatórias. 

Embora ainda encontre resistência e esteja circunscrito a locais mais periféricos da capital baiana, o samba duro junino vive um período de efervescência. Ano passado foi reconhecido como patrimônio cultural do município e ganhou edital próprio para organização dos festejos. 

Há também uma liga que congrega conjuntos de diferentes bairros e promove um arrastão pelas ruas do Garcia —ponto em Salvador de onde, na segunda-feira de Carnaval, sai o bloco Mudança do Garcia, com protestos políticos e defendendo liberdades sexuais.

“A provocação para que o samba duro junino fosse reconhecido como patrimônio partiu da própria comunidade. É um ritmo que sempre esteve à margem”, diz Fernando Guerreiro, presidente da Fundação Gregório de Matos, responsável pelo processo de condecoração do samba duro.

O arrastão da liga foi no dia 22 de junho, na antevéspera de São João. Reuniu 12 grupos. A prefeitura bancou R$ 20 mil para a organização. O samba duro tem seu ápice do Sábado de Aleluia (na festa de queima de Judas) indo até o feriado do dia 2 de julho, quando se comemoram as lutas da independência do Brasil na Bahia, ocorridas em 1823.

“O nome samba duro junino vem exatamente disso. Nosso período mais forte coincide muito com o calendário de três santos católicos: Santo Antônio (13/6), São João (24/6) e São Pedro (29/6). Tanto que usamos elementos como o chapéu de palha e a camisa quadriculada”, diz Nonato Sanskey, 47, diretor da liga.

Antes das bandas saírem, tem a feijoada de Ogum, orixá do ferro e da tecnologia. O feijão é inicialmente servido em cumbucas para 14 homens. Eles devem comer de mão. Só depois outros homens, mulheres e crianças podem comer também —usando garfos e facas, até.

Além do timbal e do tamborim, o samba junino é caracterizado por outros instrumentos: surdo, pandeiro, ganzá (uma espécie de chocalho) e o megafone.

“O megafone veio de um processo histórico. Os equipamentos eletrônicos da época eram mais precários e o som do timbal é muito alto no samba duro. Era a forma de fazer a voz sobressair”, diz Sanskey.

As letras do samba duro não diferem muito do samba tradicional. São metalinguísticas, tratando da história do próprio ritmo e também da “morena que chegou e sambou”, além do orgulho da comunidade onde nasceram.

Alguns grupos, como o já extinto Peão Doido, homenageavam os trabalhadores da construção civil e traziam denúncias contra o racismo e a opressão policial. Performáticos, os integrantes do grupo dançavam com picaretas e carrinhos de mão.

Pokett Nery, 48, foi eleita ano passado a rainha da liga do samba junino. Transgênero, ela diz que, hoje, suas participações nas rodas têm sido mais aceitas. “Antes chegavam até mim ameaças que iam me bater, quebrar minhas pernas.”

A liga banca sua fantasia. Na deste ano, com cartola, maquiagem e fraque, foram gastos R$ 150. Algumas peças são reaproveitadas de anos anteriores. O que raramente sobrevive de um São João para outro é o sapato. “Não tem como. O remelexo é constante e a sola vai embora”, brinca.

Dá para contar nos dedos a presença de mulheres entre os instrumentistas. Letícia Horário, 27, toca tamborim. Começou há cinco anos. Ela diz que o preconceito de gênero existe, mas que é possível conquistar um espaço.

“Meu sonho mesmo é tocar o timbal, mas sei que ainda vai demorar mais um pouco porque preciso ganhar a confiança dos sambistas”.

RITMO SERVIU DE BASE PARA O AXÉ

“O samba junino nunca apareceu muito na mídia, mas seus elementos foram inspiração para a axé music, que ganhou o mundo a partir do Carnaval da Bahia”, diz Vivaldo Raiala, 54, maestro e multi-instrumentista.

Ele conta que, quando Carlinhos Brown montou a Timbalada, no início dos anos 1990, os primeiros percussionistas contratados vieram das bandas de samba duro. “A Timbalada tem na base o timbal. E Brown sabia que os melhores estavam no samba duro. Ele queria trabalhar com os melhores”, diz.

Outro elemento pinçado por bandas foi o megafone. Quando surgiu no comando da banda de pagode Psirico, o cantor Marcio Victor usava o amplificador eletrônico para se comunicar com o público.

Ainda hoje ele mantém vínculos com estas raízes musicais. No dia 24 de junho, em cima de um minitrio, comandou um arrastão no Engenho Velho de Brotas com bandas de samba duro junino.

“Não vejo como exploração a relação de dados estéticos entre axé e samba duro. Se a Timbalada pescou o uso do timbal, também ajudou a valorizá-lo. Me parece mais uma questão de continuidade que de apropriação”, opina James Martins, poeta e pesquisador do documentário “Axé: o canto do povo de um lugar” (dirigido por Chico Kertész, 2016), que trata da história do ritmo.

Um dos decanos da variação junina, Mário Bafafé, 56, enxerga a questão de outra forma. Natural do Engenho Velho de Brotas, ele reivindica que o compasso teve origem no bairro. Diz também que nunca houve muito interesse na divulgação do ritmo.

“Ninguém queria divulgar muito o ritmo porque teria que divulgar também os terreiros. O que fizeram foi beber na fonte, mas sem levar junto nossa marca. A gente espera que, com esse negócio de virar patrimônio cultural, esse processo mude”, diz.

Fonte: Folha de São Paulo

Maurílio Fontes

Proprietário, jornalista, diretor e responsável pelo Portal Alagoinhas Hoje

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