Bobagem e notícia podem coexistir na web, diz editor do “BuzzFeed”

Jornalista de prestígio do mais lido site de notícias políticas de Washington, Politico.com, Ben Smith, 36, chocou colegas ao se tornar editor-chefe do “BuzzFeed”, site famoso por publicar de listas de gatinhos fofos a fotos que comprovam que o presidente Obama anda chateado.

Em menos de dois anos no cargo, transformou seu site em campeão de conteúdo viral (de rápida propagação) na internet, atraindo 80 milhões de usuários únicos mensais.

Hoje, o “BuzzFeed” ganha sua versão em português -ainda apenas traduções de reportagens do original, antes de contratar equipe e abrir escritório no país.
Ben Smith, que chega ao Rio para o festival Youpix, falou à Folha por telefone de seu escritório em Nova York sobre a inexistência de fórmulas para criar conteúdo viral, “infotenimento” e a necessidade de a publicidade melhor na internet.

Victor J. Blue/The New York Times
Ben Smith, que deixou o influente site Politico.com para ser editor-chefe do "BuzzFeed"
Ben Smith, que deixou o influente site Politico.com para ser editor-chefe do “BuzzFeed”

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BRASIL NA REDE

Os brasileiros estão à frente dos americanos na maneira como usam a internet. Para mim, é quase uma versão idealizada, vocês compartilham tudo, têm uma cultura de agregação, passam mais tempo na rede que nós.

Nas redes brasileiras, compartilham-se fotos sensuais, algo que não ocorre nos EUA, onde somos mais puritanos. No Brasil, teremos que abordar mais sexo do que aqui.

“INFOTENIMENTO”

Vários editores e repórteres veteranos se sentem desconfortáveis com nossas listas de gatinhos ou de humor. Mas é só você gastar algum tempo nas redes sociais para ver que o mesmo leitor de política e de relações internacionais passa um tempo enorme vendo vídeos tontos e lendo tudo quanto é obituário. Alta cultura e baixa cultura, assuntos sérios e entretenimento, são compartilhados sem pudor na rede. É o “infotenimento”!

PUBLICIDADE RUIM

A publicidade na internet precisa melhorar. Os usuários odeiam coisas saltando na tela, vídeos irritantes antes do conteúdo. Os anúncios precisam ser melhores do que o conteúdo -tem gente que compra a Vogue ou vê o Super Bowl [final do futebol americano] só para ver as propagandas, incríveis. Falta levar a tradição “Mad Men”, da grande publicidade, à internet.

DEFICIT DE ATENÇÃO

Grande jornalismo ainda é a base de tudo e atrai leitura.

Discordo de quem diz que vivemos em uma era de déficit de atenção. Nunca se leu tanto. Quando temos uma bela reportagem, um furo, damos com muito espaço, e elas são lidas. Até aquelas listas que fazemos, como a “33 motivos para você sentir saudades do Brasil”, têm muito texto!

FÓRMULA VIRAL

Não sou muito fã desses sistemas que otimizam os mecanismos de buscas e que dizem o que as pessoas procuram.

Claro que as pessoas querem saber quando é a final do campeonato e, se você colocar isso na rede, receberá muitos cliques. Mas não dá para ficar sempre atrás da audiência fácil. Não há forma de viralizar conteúdo. Se formos escrever sobre o que as pessoas já estão procurando, quando publicarmos será velho. Prefiro pautar a ser pautado.

ADMIRAÇÃO

Já trabalhei com Glenn Greenwald [repórter que trouxe à tona o depoimento sobre espionagem americana do ex-analista de segurança Edward Snowden], é incrível o que ele tem feito, vou tentar encontrá-lo no Rio. Suas descobertas sempre nos interessarão.

MÍDIA

No Reino Unido, temos um repórter de mídia. Lá o tema é muito maior que nos EUA, você é praticamente definido na sociedade pelo jornal que você lê, conservador, de esquerda ou tablóide.

Fonte: Folha de São Paulo

 

Maurílio Fontes

Proprietário, jornalista, diretor e responsável pelo Portal Alagoinhas Hoje