Ativistas cariocas discordam sobre o uso da violência em protestos

A cada nova manifestação no Rio de Janeiro é possível perceber mais jovens na linha de frente com roupas pretas e com os rostos cobertos por bandanas ou máscaras anti-gás. Identificados pela indumentária, os integrantes do chamado “Black Bloc” reúnem uma mescla de jovens que nem sempre partilham dos mesmos ideais.

Em geral avessos a entrevistas, alguns aceitaram falar com a Folha, desde que preservados seus sobrenomes.

Parte se revelou anarquista. Outros disseram estar ali para lutar por um Estado com leis mais justas.

Atos de violência claramente dividem as opiniões do grupo. Só há uma recomendação clara: se houver atos de depredação, que sejam focados em “símbolos do poder capitalista”, como os bancos.

A regra básica é: cada um responde por si. A liberdade de atitudes é decorrente do fato de não haver liderança entre os Black Blocs. Os próprios adeptos da prática fazem questão de ressaltar que não são um grupo; dizem compartilhar apenas uma “tática de manifestação”.

Daniel Marenco/Folhapress
Ativistas mascarados em marcha contra o governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, na quinta-feira
Ativistas mascarados em marcha contra o governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, na quinta-feira

ESTÁTUA QUEBRADA

Um dos métodos adotados é correr de um ponto para o outro, entonando o canto “uh, uh, uh”, para forçar os policiais a acompanhá-los sem que tenham clareza do destino final. Foi assim que eles conseguiram ocupar a Câmara do Rio, na quarta-feira, após percorrerem um trajeto de 1,4km.

No ato, Brás., 27 anos, técnico em química, diz ter sido o responsável por quebrar uma estátua que estava na Câmara. Ele afirmou que fez isso “para protestar contra o que os políticos representam”, mas defendeu um estado com leis. Por fim, confessou: “Não sou Black Bloc, visto preto para poder ir na frente, só isso”.

Nathália R., 19, quer prestar vestibular para Comunicação Social e é uma das integrantes do movimento. Apesar da aparência frágil, com 1,62m de altura e cerca de 50kg, ela defende “depredações de símbolos capitalistas”. “Entrei no grupo porque os acho corajosos, mais revolucionários do que quem só levanta cartaz. Fui seduzida por esse tipo de luta há 1 mês. A gente tem que afrontar, não se faz revolução com flores”.

Os encontros são marcados pelo Facebook, na página que tem mais de 18 mil seguidores. Há ali links para manuais de guerrilha, preparo físico e de sobrevivência.
medo da mãe

O estudante de Psicologia Jean S., 19 anos, participou da ocupação da Câmara do Rio e afirma ter cometido atos de depredação a agências bancárias no Leblon, na zona sul. No entanto, não se considera anarquista e é a favor do trabalho da Polícia Militar. Jean disse que a mãe não sabe da sua participação no Black Bloc. Já foi ferido por estilhaços de vidro, gás de pimenta e gás lacrimogêneo. Indagado se tinha algum medo, respondeu: “de ser preso, pela vergonha e sofrimento que minha mãe teria”.

Segundo o historiador e cientista político da UFRJ Francisco Teixeira, os atos de violência de integrantes do ideal Black Bloc surgiu pela primeira vez em Seatle, nos EUA, durante a reunião do G8, em 1999.

No Brasil, o grupo foi identificado durante a visita do presidente norte-americano Barack Obama ao Brasil, em março de 2011.

“Eles usam preto que significa a bandeira sem partido, mas não são como os Black Bloc do resto do mundo, que são anarquistas e têm organização.

Aqui não. Eles só usam os métodos, como uma estratégia, não tem liderança ou ligação no exterior”, disse.

Táticas parecidas às usadas em protestos no Rio de Janeiro e em São Paulo também apareceram em manifestações realizadas em outras capitais do país. Caso da cidade de Belo Horizonte, durante a Copa das Confederações.

Fonte: Folha de São Paulo

Maurílio Fontes

Proprietário, jornalista, diretor e responsável pelo Portal Alagoinhas Hoje