O poder da gestão e a gestão do poder – Maurílio Lopes Fontes


Uma prefeitura concentra uma quantidade considerável de poder.

O prefeito encaminha projetos ao Legislativo, executa o orçamento, nomeia secretários, estabelece prioridades, decide investimentos e comanda uma estrutura administrativa que interfere diariamente na vida da população.

Mas possuir os instrumentos do poder não significa, necessariamente, saber administrá-los. Há uma diferença importante entre o poder da gestão e a gestão do poder.

O poder da gestão está associado às prerrogativas de quem governa. A legislação estabelece competências, o orçamento disponibiliza recursos e a máquina administrativa oferece os instrumentos necessários para transformar decisões em políticas públicas.

Uma prefeitura pode construir escolas, reformar unidades de saúde, pavimentar ruas, contratar serviços, reorganizar secretarias e executar programas sociais.

A gestão do poder começa onde o organograma da prefeitura termina.

Ela envolve a capacidade de compreender e administrar as relações que se formam ao redor de cada decisão.

Vereadores, partidos, secretários, servidores, empresários, sindicatos, associações comunitárias, movimentos sociais, lideranças religiosas, imprensa e diferentes grupos da sociedade possuem interesses, expectativas e graus distintos de influência sobre o governo.

Por isso, governar uma cidade nunca é apenas administrar.

Cada decisão tomada por um prefeito interfere, em alguma medida, na distribuição de poder existente no município.

Quando uma secretaria ganha importância, alguém ganha espaço. Quando uma prioridade orçamentária é estabelecida, outras deixam de ser atendidas.

Quando determinada liderança passa a participar das decisões, outras podem perder influência. Quando um vereador amplia sua interlocução com o Executivo, modifica-se também sua posição dentro do próprio sistema político.

Até mesmo uma obra possui uma dimensão política que ultrapassa sua finalidade administrativa.

Escolher onde construir uma escola, pavimentar uma avenida ou instalar um equipamento público significa estabelecer uma prioridade territorial.

Recursos são sempre limitados e necessidades, quase sempre, superiores à capacidade imediata de atendimento.

Decidir é também escolher. É justamente por isso que cada decisão administrativa produz consequências políticas, mesmo quando não foi tomada com tal finalidade.

Essa característica aparece com ainda maior intensidade nos municípios.

Na política nacional, muitas relações são mediadas por partidos, instituições e estruturas burocráticas extensas.

Na cidade, o poder é mais próximo. Prefeito, vereadores, secretários, lideranças e cidadãos frequentemente compartilham os mesmos espaços sociais.

Demandas chegam diretamente aos agentes públicos e as consequências das decisões tornam-se rapidamente perceptíveis.

Essa proximidade permite enxergar algo que os organogramas não mostram.

Nem sempre quem possui cargo detém influência. E nem sempre quem possui influência precisa de cargo.

Há secretários com grande autoridade administrativa e reduzida capacidade política.

Existem vereadores cuja influência sobre determinadas decisões supera aquela sugerida pelo tamanho formal de suas bancadas.

Há lideranças comunitárias capazes de mobilizar bairros inteiros. Existem setores econômicos com capacidade de colocar determinados assuntos na agenda pública.

E existem pessoas sem qualquer posição institucional que, pelas relações construídas ao longo dos anos, conseguem acessar os centros de decisão.

O poder municipal, portanto, não está concentrado exclusivamente no gabinete do prefeito. Ele se distribui por uma rede de relações formais e informais.

É nessa rede que a gestão do poder se torna decisiva.

Um prefeito pode possuir maioria na Câmara e ainda assim enfrentar dificuldades de governabilidade. Pode distribuir cargos entre aliados e continuar convivendo com insatisfações.

Pode realizar obras importantes e não conseguir transformar resultados administrativos em apoio político. Pode ampliar uma coalizão e, paradoxalmente, produzir conflitos dentro da própria base.

Isso ocorre porque apoio não é uma condição adquirida definitivamente.

As relações políticas precisam ser permanentemente administradas. Interesses mudam, expectativas aumentam, eleições se aproximam, lideranças emergem, alianças são revistas e circunstâncias que pareciam estáveis podem mudar rapidamente.

É possível, portanto, que uma administração disponha de grande poder de gestão e revele baixa capacidade de gestão do poder.

Esse talvez seja um dos paradoxos mais importantes dos governos municipais. Quanto maior a concentração de decisões no Executivo, maior pode ser a impressão de força.

Mas concentração excessiva também pode reduzir a circulação de informações, afastar aliados, aumentar erros de avaliação e transformar pequenas insatisfações em problemas políticos maiores.

Governar exige autoridade. Mas exige igualmente percepção. O prefeito precisa saber não apenas o que está acontecendo na administração, mas o que está acontecendo ao redor dela.

Precisa perceber mudanças na Câmara, movimentos dentro dos partidos, tensões entre grupos aliados, demandas que começam a ganhar força nos bairros e alterações na percepção da sociedade.

Isso não significa subordinar a administração aos interesses políticos.

Uma gestão pública responsável precisa estabelecer limites claros entre interesse público e conveniência particular.

Significa reconhecer algo mais elementar: políticas públicas são formuladas e executadas dentro de ambientes nos quais diferentes atores disputam prioridades, recursos e capacidade de influência.

Ignorar essas relações não elimina a política. Apenas reduz a capacidade de compreendê-la.

Por isso, talvez uma das perguntas mais importantes para qualquer governo municipal não seja apenas quanto poder possui, mas como esse poder está sendo exercido, distribuído e percebido.

Uma prefeitura pode ter orçamento considerável, maioria legislativa, cargos de livre nomeação, estrutura administrativa e instrumentos legais.

Tudo isso constitui poder. Sua estabilidade, entretanto, dependerá também da capacidade de interpretar as relações que se formam em torno dele.

No final, a distinção é relativamente simples.

O poder da gestão permite tomar decisões.

A gestão do poder ajuda a compreender o que essas decisões produzem nas relações de força da cidade.

Governar bem – e com resultados – exige as duas coisas, difíceis de serem conjugadas, mas imprescindíveis a quem comanda o Executivo.

Mestre em Marketing, Comunicação e Consultoria Política (Espanha/Itália)

Diplomado em Gestão de Governo e Liderança Política (George Washington University – EUA)

Especialista em Marketing Político, Mídia, Comportamento Eleitoral e Opinião Pública (UCSAL)

Especialista em Estratégia e Liderança Política (Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo)

Especialista em Assessoria Política e Governo (UCSAL)

MBA em Comunicação Governamental e Marketing Político (IDP/Brasília)

Formação em Governança e Inovação Pública (FGV/RJ e Banco de Desenvolvimento da América Latina e Caribe – CAF)

Maurílio Fontes

Proprietário, jornalista, diretor e responsável pelo Portal Alagoinhas Hoje

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