Confiança: um ativo essencial para quem exerce o poder – Maurílio Lopes Fontes


A confiança é um dos principais ativos de quem exerce o poder. É ativo essencial.

Não aparece no orçamento, não pode ser inaugurada, não cabe em fotografias e dificilmente pode ser medida em toda a sua complexidade.

Mas está presente em praticamente todas as relações que sustentam um governo.

Quando existe, amplia a credibilidade de quem governa, facilita o diálogo com a sociedade, fortalece alianças e aumenta a capacidade política de enfrentar dificuldades. Quando começa a desaparecer, ocorre o movimento contrário.

A perda de confiança raramente permanece restrita à relação entre governante e população. Seus efeitos tendem a alcançar progressivamente outras dimensões do poder.

Primeiro, aparece na percepção social.

A sociedade começa a olhar com maior desconfiança para decisões, anúncios, promessas e explicações do governo. Medidas que anteriormente seriam recebidas com expectativa passam a ser examinadas com ceticismo.

É nesse momento que surge uma diferença importante entre popularidade e confiança.

A popularidade pode oscilar rapidamente. Uma crise, uma decisão impopular ou uma circunstância econômica desfavorável podem reduzir temporariamente a aprovação de qualquer governo.

A confiança é mais profunda.

Ela está relacionada à percepção de que quem governa possui capacidade para conduzir a administração, enfrentar problemas, cumprir compromissos e oferecer respostas convincentes à sociedade.

Por isso, uma queda de aprovação não significa necessariamente uma crise de confiança. O problema se torna maior quando as duas coisas começam a caminhar na mesma direção.

Nos municípios, esse processo possui características particulares. O governo municipal está muito próximo da vida cotidiana.

A administração é percebida no atendimento do posto de saúde, na escola, no transporte, na limpeza urbana, na iluminação, na conservação das ruas e na capacidade de responder às inúmeras demandas que chegam diariamente ao poder público.

Essa proximidade transforma a confiança em algo submetido permanentemente ao teste da realidade.

E a percepção construída pela sociedade não permanece confinada à sociedade.

A política observa a política. Partidos, vereadores, lideranças comunitárias, dirigentes partidários e grupos que integram uma coalizão acompanham os movimentos da opinião pública.

Enquanto um governo mantém confiança social e aprovação elevada, tende a exercer maior capacidade de atração sobre as forças políticas que o cercam.

A expectativa de êxito aproxima. A expectativa de dificuldades pode produzir o movimento inverso.

Quando a confiança se deteriora de maneira persistente, começam os cálculos políticos.

Aliados passam a avaliar custos e benefícios de permanecer próximos. Surgem cobranças antes feitas reservadamente. Algumas diferenças tornam-se públicas. Outros preferem o silêncio. Lideranças começam a preservar suas próprias identidades políticas e eleitorais.

Nem sempre isso significa rompimento. Muitas vezes significa apenas reposicionamento.

Mas o reposicionamento dos aliados é um dos sinais de que uma dificuldade inicialmente localizada na opinião pública pode estar chegando ao sistema de sustentação política do governo.

Forma-se, então, uma cadeia de consequências.

A perda de confiança reduz a credibilidade. A redução da credibilidade dificulta a comunicação. A dificuldade de comunicação compromete a capacidade de convencimento. A queda da aprovação modifica o comportamento dos aliados. E o enfraquecimento das alianças pode reduzir a capacidade de governar.

Há ainda outro efeito importante. Quando a confiança diminui, diminui também a capacidade do governo de produzir sentidos sobre a própria realidade.

Governar não significa apenas realizar. Significa também explicar decisões, estabelecer prioridades e disputar interpretações sobre aquilo que acontece.

Um governo que conserva credibilidade possui melhores condições para apresentar sua narrativa à sociedade.

Quando perde confiança, seus argumentos passam a encontrar resistências. O anúncio de uma realização pode ser recebido com dúvida. A explicação para um problema pode parecer justificativa. Uma promessa pode ser interpretada como tentativa de recuperar aquilo que já foi perdido.

Nesse ambiente, as narrativas adversárias encontram terreno mais favorável.

Por isso, crises de confiança não são resolvidas exclusivamente pela comunicação.

A comunicação pode explicar, contextualizar e organizar sentidos. Mas não consegue substituir a realidade.

Recuperar confiança exige produzir fatos capazes de modificar percepções, reconhecer problemas, corrigir rumos e demonstrar capacidade de resposta.

Também exige tempo.

Confiança política possui uma característica peculiar: pode levar anos para ser construída e poucos meses para sofrer uma deterioração significativa.

Reconstruí-la costuma ser mais difícil do que conquistá-la inicialmente, porque quem tenta recuperá-la precisa enfrentar não apenas os problemas existentes, mas também a memória das expectativas frustradas.

Talvez esteja aí uma das maiores dificuldades de qualquer governo. Enquanto a confiança existe, seus efeitos quase sempre parecem naturais. Quando começa a desaparecer, percebe-se o quanto ela sustentava.

A confiança é um ativo invisível enquanto existe.

Quando se perde, seus efeitos tornam-se visíveis em quase todas as dimensões do poder.

Imagem elaborada por IA

Maurílio Fontes

Proprietário, jornalista, diretor e responsável pelo Portal Alagoinhas Hoje

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