Nada por acaso – Ernesto Marques

A Bahia é o quarto maior colégio eleitoral do Brasil e o maior estado governado pelo PT, já em segundo mandato consecutivo. O fato de termos “herdado” uma terra arrasada, com mais de 2,1 milhões de analfabetos, entre outros indicadores sociais vergonhosos criaria, em tese, um cenário francamente favorável ao crescimento e fortalecimento de um partido com as características do PT. No entanto, os êxitos do governo estadual, em especial no combate ao analfabetismo, na expansão do acesso à água e na desconcentração de oportunidades e geração de empregos formais, coincidem com o maior revés experimentado pelo Partido na Bahia, desde a sua fundação. Nem a mais severa derrota eleitoral nos custou tanto. Por que?
A uma semana da eleição interna que escolherá a próxima direção partidária em todos os níveis, há quem persista na tentativa de sufocar o debate e evitar que o conjunto de filiados faça, neste PED (Processo Eleitoral Direto) o balanço a que nos acostumamos a cada fim de gestão. Balanço do Partido e dos nossos governos. A lógica que presidiu a ideia do “chapão” segue um raciocínio equivocado segundo o qual, quanto menos reflexão, melhor. Quanto menos Política, melhor. Quanto menos debate, melhor. Quanto menos Partido, melhor. Melhor para quem? Melhor para o que?
Nem a derrota em Salvador, quando tudo indicava que finalmente chegaríamos ao Thomé de Souza, inspirou qualquer tipo de análise crítica. Os próceres desse modo de desorganizar o PT argumentam em favor de seu método, a eleição de 93 prefeitos. Mas omitem o fato de 2/3 destes terem se filiado após a eleição de Wagner em 2006 – entre eles, ex-calistas de quatro costados e alguns anti-petistas viscerais, convertidos pela atração irresistível do poder. Chamados a um curso sobre o modo petista de governar, apareceram menos de 30 e apenas seis estavam no encerramento.
Somem-se a esses “incríveis” feitos eleitorais, a formação das maiores bancadas na Assembleia Legislativa, onde temos 14 representantes, e na Câmara, onde somos 10 entre 39 deputados federais; e o nosso primeiro senador. Apesar do inegável crescimento institucional, a conversão do que já foi um vigoroso instrumento de organização da classe trabalhadora numa máquina eleitoral potente, enfraqueceu o PT na Bahia. Somos o quarto estado em número de filiados, mas apenas o sétimo em filiados aptos a votar neste PED. Ficamos atrás de Pernambuco e Ceará, com populações e eleitorados bem menores, e esse dado já é bastante revelador. Os espaços institucionais que um dia serviram à construção partidária foram dispensados dessa tarefa fundamental. Erro grave.
Não se trata de fatalidade. Tampouco das consequências naturais de erros políticos eventualmente cometidos. Foi uma escolha estratégica para manter o controle sobre a burocracia partidária com base na asfixia da militância que construiu o maior partido de esquerda do hemisfério sul.
A desorganização evidente hoje, é confessada publicamente pelo atual titular da Secretaria de Organização e – pasmem! – candidato de Jonas Paulo à sua sucessão na disputa pela presidência estadual. Todas as fichas acumuladas em 33 longos anos de construção política foram colocadas em jogo para apostar na institucionalidade, em detrimento da organização partidária. Isso só foi possível graças ao progressivo esvaziamento das instâncias e depreciação do trabalho dos militantes e lideranças de base.
Como estamos numa democracia e a alternância no poder é uma possibilidade reapresentada a cada ciclo de quatro anos, mais dia, menos dia, voltaremos à planície de todos nós. E quando esse dia chegar, sem a caneta mágica, nossa única arma será a mesma que nos levou ao governo: o PT. A questão é: como estará o Partido quando esse dia chegar?
Impusemos uma derrota política acachapante à tese empobrecedora e despolitizada do chapão. E essa vitória política não dependeu de burocracia, nem de estrutura de campanha. Dependeu apenas da prática da boa Política a partir da apresentação da nossa opinião política e do debate assegurado com a apresentação da nossa candidatura e da chapa Partido Mais Forte 450.
Independente do resultado eleitoral, essa vitória é das quatro chapas que recusaram o tal “chapão” e se apresentaram para o debate. Mas mantenhamo-nos atentos às urnas mesmo assim: será a derradeira prova cabal da política deliberada de desorganização do PT, quando o vistoso número de 93 mil filiados será confrontado com a menor participação proporcional da militância num PED. A vencer um dos quatro da oposição interna, será um grande feito. A vencer o candidato da situação que autoproclama sua vitória desde o dia seguinte à contagem dos boletos de pagamento da contribuição partidária que dá acesso às urnas, será a maior e mais autêntica VITÓRIA DE PIRRO de toda a história da política baiana.
Se os artífices dessa política não forem “condenados” pelas urnas de 10 de novembro de 2014, a História haverá de julgá-los.

Ernesto Marques é jornalista e candidato à presidência do PT da Bahia

Maurílio Fontes

Proprietário, jornalista, diretor e responsável pelo Portal Alagoinhas Hoje