Empréstimos e bolsas de estudo catapultam ensino superior

O Fies (Fundo de Financiamento Estudantil) do governo federal já representa um terço das novas matrículas do ensino superior privado. Entre os grandes grupos que atuam no setor, esse percentual pode chegar a 50%, segundo relatório recente do banco Morgan Stanley.

Os dados indicam como a expansão do programa de empréstimos estudantis tem mudado o cenário da educação superior privada no país.

De 2010 a 2014, os financiamentos saltaram de R$ 1 bilhão para R$ 9 bilhões (descontada a inflação). Isso, somado à abertura de mais universidades públicas, levou a um aumento de 48% nas matrículas no ensino superior.

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O número de alunos frequentando essa etapa da educação, no entanto, ainda é baixo. Representava 18% dos jovens de 20 anos em 2012, uma das menores taxas entre países de grandes economias.

A média dos países da OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico, que reúne 34 grandes economias) é de 38%. O Brasil ainda fica atrás de vizinhos da América Latina como Chile (45%), Argentina (34%) e México (24%).

Mas o cenário brasileiro já foi pior. Em 2007, a fatia da população de 20 anos na universidade era de apenas 14%. A mudança do quadro do ensino superior começou em meados dos anos 90, quando foi liberada sua exploração com fins lucrativos no país. Isso incentivou a oferta de vagas pelo setor privado.

A baixa renda, no entanto, permanecia um obstáculo à expansão da demanda. O problema começou a ser contornado com a maior oferta de financiamento público.

Desde 2005, o governo tem concedido mais bolsas (parciais ou integrais) a alunos de baixa renda por meio do ProUni (Programa Universidade para Todos). Os valores triplicaram (descontada a inflação) entre 2005 e 2013, alcançando R$ 824 milhões.

Mas o impulso maior veio por meio do Fies, programa de financiamento estudantil fortemente subsidiado. Os baixos juros cobrados (3,4% ao ano) e os amplos prazos para pagamento impulsionaram o mercado.

“Os grupos que são grandes captadores de alunos têm estrutura montada para atrair estudantes com perfil para o financiamento”, diz o consultor Carlos Monteiro, presidente da CM Consultoria.

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NOVOS DESAFIOS

O país tem de superar, porém, desafios significativos. O Plano Nacional de Educação (PNE) prevê que o percentual da população de 18 a 24 anos na educação superior salte de 15,4% em 2012 para 33% em 2024. Para chegar lá, será necessário continuar expandindo o financiamento e tornar os cursos mais atraentes para reduzir a alta evasão.

“O sistema precisa parar de perder alunos para seguir crescendo”, diz Monteiro, que estima a evasão em 30% nos cursos presenciais e em 80% no ensino à distância. Para Daniel Castanho, diretor-presidente do grupo Ânima, as universidades precisam usar a tecnologia para mudar o formato de ensino.

“O aluno é tratado como mero telespectador. Por isso, entra na universidade e não vê sentido naquilo”, afirma. As instituições já exploram novos formatos de ensino e cursos para a nova geração. “A próxima fase no ensino superior será de diferenciação”, diz Rogério Melzi, presidente do Grupo Estácio.

À DISTÂNCIA

Para especialistas, um modelo que tende a dar certo é o de ensino híbrido, que combine ensino presencial e à distância em doses similares. Atualmente, a legislação só permite que 20% do tempo dos cursos presenciais seja ministrado remotamente.

Já os cursos classificados como “à distância” têm mais flexibilidade. O segmento teve uma explosão a partir de meados da década passada. Mas a continuidade da expansão esbarra no financiamento. O Fies ainda não pode ser usado para o ensino superior à distância.

Américo Matiello, vice-presidente do grupo Kroton, afirma que é possível que o Ministério da Educação prefira avançar mais no ensino presencial antes de entrar na modalidade à distância. Ele destaca que o grande foco para o Pronatec (Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego) também limita a disponibilidade de recursos públicos.

A brecha de mercado criada por essa situação levou a Ideal Invest, gestora de crédito estudantil, a abrir uma linha de empréstimo para alunos de cursos à distância. A empresa adaptou seu modelo de negócio, buscando oferecer outros serviços, após a expansão do Fies.

Fez, por exemplo, parcerias com algumas universidades que concordaram em subsidiar parte dos juros dos financiamentos dos alunos. Segundo Carlos Furlan, diretor-executivo da Ideal Invest, embora os juros cobrados pelo Fies sejam menores, as universidades têm interesse em receber alunos com outras fontes de empréstimos.

“Para as universidades, a diversificação é uma forma de diminuir a exposição excessiva ao Fies”, diz Furlan. Um dos riscos com o qual o setor privado trabalha é o de uma queda abrupta do financiamento público em caso de uma piora mais significativa das contas públicas.

Outro risco é a inadimplência do Fies superar o esperado quando os primeiros alunos financiados nos últimos anos chegarem ao mercado. “Um dos desafios do Brasil é ter emprego a partir de 2017 para esses alunos”, diz José Roberto Loureiro, CEO da Laureate no Brasil.

“Se a economia não estiver bem e não houver oportunidade de trabalho suficiente, a inadimplência pode ser alta. Isso nos preocupa.”

Fonte: Folha de São Paulo

Maurílio Fontes

Proprietário, jornalista, diretor e responsável pelo Portal Alagoinhas Hoje