Waldir Pires, os comunistas e o Cardeal da Silva – Maurílio Lopes Fontes


Há derrotas eleitorais que revelam mais sobre um político do que suas vitórias. A de Waldir Pires (PSD), na eleição para o governo da Bahia, em 1962, é uma delas.

Waldir tinha 35 anos quando disputou a eleição contra Lomanto Júnior (Partido Libertador-PL).

Já possuía trajetória política importante. Havia sido secretário de Governo na administração de Régis Pacheco (1951/1955), deputado estadual, líder informal do governo Antônio Balbino na Assembleia Legislativa (legislatura 1955/1959) e exercia seu primeiro mandato de deputado federal.

Jovem, intelectualmente preparado e identificado com setores reformistas, apresentava-se como uma das mais promissoras lideranças políticas de sua geração.

Mas aquela não seria uma eleição disputada apenas nos comícios, nas articulações políticas ou no confronto entre projetos para a Bahia. Seria disputada também nas igrejas. E nos confessionários.

O Brasil vivia um período de enorme tensão. As reformas de base ocupavam progressivamente o centro do debate nacional. A Revolução Cubana, ocorrida poucos anos antes (1959), alimentava temores nas elites políticas, econômicas e religiosas.

A Guerra Fria transformara o comunismo não apenas em adversário ideológico, mas, para determinados segmentos da sociedade, em ameaça à religião, à família e à própria ordem social.

A candidatura de Waldir Pires recebeu o apoio de setores de esquerda e de integrantes do Partido Comunista Brasileiro, então na ilegalidade. Isso seria suficiente para que seus adversários procurassem transformar uma aliança eleitoral em identidade ideológica.

O historiador Célio Roberto de Araújo, em sua dissertação “O voto, o terço e as armas: atuação política da Igreja Católica na Bahia na conjuntura do golpe de 1964”, defendida na Universidade Federal da Bahia, demonstra que Waldir se tornou um dos principais alvos da atuação política de setores da Igreja nas eleições de 1962.

O Diário de Notícias, por exemplo, registrou em 6 de setembro, um mês antes dos baianos irem às urnas no dia 7 de outubro, que sua candidatura estava ameaçada pelo apoio comunista, embora Waldir fosse, paradoxalmente, professor da Universidade Católica (UCSAL).

O paradoxo é revelador. Não bastava não ser comunista. Era necessário demonstrar que não se mantinham relações políticas com comunistas.

E Waldir recusou-se a fazer isso. O episódio mais emblemático daquela campanha ocorreu quando Dom Augusto Álvaro da Silva, o Cardeal da Silva, então a maior autoridade da Igreja Católica na Bahia, mandou chamá-lo.

Décadas depois, Waldir contaria a história.

Segundo seu depoimento, o cardeal soubera que os comunistas votariam nele e exigiu que recusasse publicamente aqueles votos. Waldir explicou que não era comunista porque não aceitava regimes ditatoriais ou autoritários.

Mas acrescentou um argumento que talvez seja a chave para compreender não apenas aquele episódio, mas sua própria concepção de democracia: o Estado era laico e os votos dos comunistas deveriam ser respeitados.

Em conversa comigo em janeiro de 2012, Waldir Pires também tratou do assunto. Questionado pelo Cardeal da Silva se era comunista, respondeu: “Não sou comunista, sou amigo dos comunistas”.

Verdade incômoda para o maior líder da Igreja Católica na Bahia.

Em depoimento à pesquisadora Maria do Carmo de Souz, Waldir foi ainda mais claro: recusar aqueles votos seria praticar a “anticidadania”.

Em plena Guerra Fria, quando o anticomunismo começava a transformar adversários políticos em inimigos a serem eliminados do espaço público, Waldir Pires recusava-se a estabelecer uma categoria de cidadãos cujos votos não seriam dignos de receber.

Não precisava concordar com eles, mas os reconhecia como cidadãos.

O preço político dessa posição seria alto.

Segundo Waldir, diante de sua recusa, o cardeal determinou que fossem afixadas nas igrejas orientações para que os católicos não votassem nele. A campanha anticomunista ganhou dimensão religiosa e encontrou espaço também na imprensa.

A pesquisa histórica confirma que não se tratava apenas da memória posterior de um candidato derrotado.

Célio Araújo demonstra a atuação da Aliança Eleitoral pela Família (ALEF), organização vinculada a setores católicos que avaliava candidaturas segundo critérios políticos e religiosos.

As relações de Waldir com pessoas ligadas ao PCB foram fundamentais para sua exclusão entre os candidatos considerados aceitáveis.

A documentação examinada pelo pesquisador revela a disposição de setores da Igreja de combater não somente os comunistas, mas também candidatos que mantivessem relações políticas próximas com eles.

O jornal A Tarde também desempenhou papel importante naquele ambiente político.

A ofensiva anticomunista ganhou intensidade nos últimos dias da campanha. Pesquisa de Thiago Machado de Lima reproduz trecho da coluna “Vida Católica”, publicada por A Tarde em 6 de outubro de 1962, véspera da eleição.

O texto advertia o eleitor católico contra candidatos que se deixavam acompanhar por pessoas identificadas como comunistas ou simpatizantes do Partido Comunista e condenava aqueles que pretendiam conquistar, ao mesmo tempo, o apoio de comunistas e católicos.

A mensagem tinha endereço político bastante evidente naquele contexto. Não era necessário escrever o nome de Waldir Pires. O eleitor sabia de quem se estava falando.

A campanha eleitoral deixava, assim, o terreno das propostas administrativas e econômicas e ingressava no território da construção simbólica do medo.

Waldir não precisava ser comunista. Era suficiente fazê-lo parecer próximo demais dos comunistas. É uma distinção fundamental para compreender aquela eleição.

Não estava em disputa somente o significado das propostas apresentadas pelos candidatos. O debate se dava em torno da imagem de Waldir Pires (o aliado dos comunistas) perante o eleitor, “pecado” aparentemente imperdoável na Bahia do início da década de 1960.

Professor universitário, democrata, católico, parlamentar e defensor das instituições poderia ser ressignificado pela campanha adversária como alguém associado a uma ameaça maior: o comunismo.

É impossível aferir, mais de seis décadas depois, quantos votos foram efetivamente perddos por Waldir pela intervenção de setores da Igreja Católica e em razão da campanha determinada pelo Cardeal da Silva.

Seria imprudente atribuir sua derrota exclusivamente ao cardeal ou à campanha anticomunista.

Lomanto Júnior possuía força própria, construiu uma candidatura de forte apelo municipalista e conseguiu reunir importantes forças políticas, inclusive o apoio (contraditório) de João Goulart, amigo do candidato do PSD (a aliança circunstancial entre Goulart e Lomanto em 1962 também foi tema da conversa que mantive com Waldir Pires em 2012).

Mas seria um erro desprezar o peso da Igreja numa sociedade profundamente católica e a capacidade de influência de seus sacerdotes sobre milhares de eleitores.

O próprio Waldir jamais desprezou esse fator e o resultado mostra a dimensão da disputa.

Os dados eleitorais disponíveis registram 767.779 votos válidos na disputa pelo governo da Bahia em 1962. Lomanto Júnior obteve 396.051 votos (51,58%), contra 352.428 (45,90%) de Waldir Pires. Aristóteles Góes, do Movimento Trabalhista Renovador (MTR), recebeu 19.300 votos (2,51%).

Apenas 43.623 votos separaram Lomanto e Waldir, uma diferença de 5,68 pontos percentuais.

Décadas depois, ao homenagear Waldir, o Senado Federal também lembraria aquela eleição como uma disputa decidida por margem estreita e registraria a existência, na reta final da campanha, de uma forte mobilização conservadora que procurou vinculá-lo aos comunistas.

Mas há uma pequena história dentro dessa grande história. Talvez seja a mais humana de todas.

Waldir contou que sua própria mãe, católica praticante, foi advertida por um padre durante uma confissão de que não deveria votar em Waldir Pires.

A resposta dela atravessou as décadas: era seu filho. E seu filho não era comunista. O episódio parece quase uma cena escrita para simbolizar aquele momento histórico.

A política havia entrado nas igrejas do imenso território baiano, a seguir no púlpito e depois no confessionário.

A eleição terminaria com a vitória de Lomanto Júnior. Waldir perdeu. Mas sua resposta ao cardeal permaneceu ecoando na história política da Bahia.

E talvez seja exatamente aí que aquela derrota eleitoral adquira outro significado quando observada à distância.

Waldir poderia ter recusado os votos dos comunistas.

Politicamente, talvez fosse conveniente. Poderia ter produzido uma declaração cuidadosamente redigida, reafirmado sua fé católica, condenado o comunismo e tentado neutralizar a campanha que crescia contra ele.

Preferiu não fazê-lo. Não porque fosse comunista. Mas por entender que uma democracia não pode estabelecer previamente quais cidadãos possuem votos moralmente aceitáveis.

Menos de dois anos depois, em 31 de março de 1964, o Brasil mergulharia numa ditadura que utilizaria justamente o anticomunismo como uma de suas principais justificativas políticas.

Waldir Pires estaria do outro lado. Consultor-geral da República no governo João Goulart, seria atingido pelo golpe, perseguido e obrigado a deixar o país.

Vista retrospectivamente, portanto, a eleição baiana de 1962 parece conter, em escala estadual, alguns dos conflitos que explodiriam nacionalmente em 1964: democracia e autoritarismo, reformas e conservadorismo, religião e política, pluralismo e exclusão, adversários transformados em inimigos.

Por isso, quando revisitamos aquela campanha no ano do centenário de nascimento de Waldir Pires, após 64 anos, não devemos perguntar apenas por que ele perdeu aquela eleição.

Há uma pergunta talvez mais interessante: O que Waldir Pires se recusou a fazer para vencê-la? Recusou-se a negar cidadania política a quem pensava diferente dele.

Algumas derrotas ajudam a explicar uma vida inteira. E a de Waldir Pires, em 1962, é emblemática e reveladora dos princípios cultuados em sua longa trajetória política.

A conveniência momentânea, quando confrontada com seus valores e em oposição a eles, nunca foi a escolha de Francisco Waldir Pires de Souza.

Foto Waldir Pires: extraída do Instagram bauhistoricodabahia

Foto do Cardeal da Silva: Wikipedia

Montagem da foto do artigo: ChatGPT

Maurílio Lopes Fontes é mestre em Marketing, Comunicação e Consultoria Política (Espanha), diplomado em Gestão de Governo e Liderança Política (George Washington University) e especialista em Marketing Político, Mídia, Comportamento Eleitoral e Opinião Pública (UCSAL)

Maurílio Fontes

Proprietário, jornalista, diretor e responsável pelo Portal Alagoinhas Hoje

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