A produção de sentidos na política – Maurílio Lopes Fontes


A política não é apenas uma disputa pelo poder. É também uma disputa pela construção dos sentidos através dos quais a realidade é interpretada

Mudança. Continuidade. Renovação. Experiência. Independência. Oposição. Liderança. Cada uma dessas palavras parece possuir um significado evidente. Não possui. Na política, palavras carregam valores, interesses e diferentes maneiras de interpretar a realidade.

Por isso, uma das disputas menos percebidas – e talvez uma das mais importantes – ocorre quando determinado grupo consegue fazer prevalecer o seu modo de nomear as coisas.

Quem define as palavras utilizadas no debate conquista uma vantagem importante para definir também os termos da discussão.

Quando um grupo procura apresentar determinada liderança como representante da “renovação”, não está simplesmente descrevendo uma característica.

Renovação passa a carregar uma avaliação positiva e, ao mesmo tempo, estabelece implicitamente o seu contrário: se alguém representa o novo, outros poderão ser associados ao velho.

O mesmo acontece com a palavra “experiência”. Para quem deseja valorizá-la, experiência significa conhecimento, preparo, capacidade de articulação e domínio da administração pública. Para quem pretende combatê-la, a mesma trajetória pode ser apresentada como permanência excessiva na política.

O que está em disputa, portanto, não é apenas a trajetória de uma pessoa.É o significado político atribuído a essa trajetória.

“Continuidade” oferece outro exemplo. Pode significar preservação de políticas consideradas positivas, estabilidade administrativa e manutenção de um projeto. Mas pode igualmente ser apresentada como ausência de renovação.

“Mudança”, por sua vez, pode representar esperança, disposição para fazer diferente e abertura de um novo ciclo.Ou pode ser associada a incerteza, improvisação e risco.

Nenhuma dessas palavras pertence definitivamente a um grupo político. Seu significado precisa ser construído.É exatamente por isso que a política não acontece apenas quando alguém apresenta uma proposta ou responde ao adversário. Ela acontece também quando determinados sentidos começam a circular, são repetidos e, pouco a pouco, passam a parecer naturais. Esse processo merece atenção.

Uma palavra repetida durante meses pode deixar de ser percebida como interpretação e começar a funcionar como se fosse descrição objetiva da realidade.

Uma liderança passa a ser chamada reiteradamente de “forte”. Outra, de “isolada”. Um governo é definido como “próximo das pessoas”. Outro, como “distante”. Uma gestão é apresentada como “moderna”. Outra, como “ultrapassada”. Em algum momento, a discussão já não ocorre somente sobre os fatos que sustentariam essas definições. Passa a ocorrer dentro das próprias categorias que foram estabelecidas. É aí que a produção de sentidos se transforma em poder político.

O grupo que consegue estabelecer determinada palavra no debate público obriga frequentemente os demais a se posicionarem diante dela.E existe uma armadilha nessa situação.

Quando um ator político aceita o vocabulário criado pelo adversário e passa apenas a negar aquilo que lhe foi atribuído, pode contribuir involuntariamente para manter aquele enquadramento no centro da discussão.

Se alguém precisa repetir continuamente que “não está isolado”, por exemplo, a palavra “isolamento” continua circulando.

Se precisa afirmar sucessivamente que “não representa o passado”, mantém a relação entre sua imagem e a ideia de passado em discussão.

A disputa, portanto, não consiste somente em responder. Às vezes, consiste em recusar os termos em que a pergunta foi colocada e estabelecer outros. Esse fenômeno ajuda a compreender por que algumas mensagens políticas sobrevivem mesmo quando são contestadas. Não necessariamente porque sejam verdadeiras. Mas porque conseguiram estabelecer a linguagem dentro da qual o debate passou a acontecer.

Em Alagoinhas, observar apenas declarações, alianças, candidaturas e movimentações partidárias será insuficiente para compreender os próximos embates políticos. Será necessário prestar atenção também às palavras.

Quais começam a ser associadas a determinadas lideranças? Quais conceitos aparecem repetidamente? Quem procura representar a mudança? Quem reivindica a experiência? Quem tenta atribuir ao adversário a imagem do passado? Quem procura definir o que significa governar bem? Quem consegue estabelecer os critérios pelos quais os demais serão julgados?

Essas perguntas revelam uma dimensão da política que nem sempre aparece nas pesquisas eleitorais ou nas fotografias dos encontros partidários.

A disputa pelo poder passa também pela disputa sobre o significado das coisas. Por isso, talvez seja insuficiente perguntar apenas quem conseguirá convencer mais pessoas.

Antes disso, existe outra batalha: quem conseguirá estabelecer as palavras através das quais as pessoas compreenderão a disputa?

Na política, quem consegue impor uma interpretação não determina automaticamente o resultado. Mas conquista algo valioso.

Consegue fazer com que parte da disputa aconteça dentro do mundo de sentidos que ajudou a construir.

COMENTÁRIO
Há algum tempo venho dedicando especial atenção ao estudo da produção de sentidos na política, tema que considero fundamental para compreender as disputas contemporâneas pelo poder.

Interessa-me particularmente investigar como palavras, conceitos e interpretações participam da construção da realidade política, influenciando a percepção sobre acontecimentos, governos, lideranças e conflitos, com impactos concretos nas disputas eleitorais e nas escolhas dos eleitores.

É um campo de estudo que pretendo continuar aprofundando e incorporando às minhas análises políticas.


Imagem elaborada por IA

Maurílio Fontes

Proprietário, jornalista, diretor e responsável pelo Portal Alagoinhas Hoje

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